{"id":6421,"date":"2021-06-29T18:10:49","date_gmt":"2021-06-29T21:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/fapol.org\/blog\/portfolio-items\/autismo-renacer-desde-el-exilio\/"},"modified":"2024-12-16T17:12:42","modified_gmt":"2024-12-16T20:12:42","slug":"autismo-renascer-desde-o-exilio","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/blog\/portfolio-items\/autismo-renascer-desde-o-exilio\/","title":{"rendered":"Autismo. Renascer desde o ex\u00edlio"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1248px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Autismo. Renascer desde o ex\u00edlio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A separa\u00e7\u00e3o, for\u00e7ada ou volunt\u00e1ria, de um individuo de sua terra natal, de sua l\u00edngua e dos seus, \u00e9 o que se conhece como ex\u00edlio. Este termo evoca uma expuls\u00e3o para fora do lugar de origem, para fora do Outro de onde um sujeito est\u00e1 inscrito. Esta separa\u00e7\u00e3o \u00e9 experimentada como um arrancamento aonde se coloca em jogo a<em> dor do existir<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><em>.<\/em> Neste sentido, podemos dizer que somente h\u00e1 ex\u00edlio para o ser falante, enquanto este atravessamento nos remete \u00e0 uma experi\u00eancia subjetiva singular e irrepet\u00edvel, e que se encontra intimamente articulada \u00e0 linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Ex\u00edlio generalizado<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abordar o ex\u00edlio \u00e9 referirmos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o mesma do ser humano. O nascimento do vivente est\u00e1 marcado pela prematuridade. Este chega ao mundo, desamparado e desprovido dos recursos necess\u00e1rios para sobreviver, necessita de um Outro que venha \u00e0 seu aux\u00edlio. O encontro do vivente com o Outro \u00e9 de uma ordem singular, imprevis\u00edvel e marcado pela conting\u00eancia. Uma nacionalidade, uma l\u00edngua, uma fam\u00edlia, e um discurso nos s\u00e3o impostos inclusive desde antes de nascer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob estes termos, o nascimento pode ser lido como uma forma de ex\u00edlio. Expulsados na dire\u00e7\u00e3o de um Outro desconhecido, estrangeiros frente ao Outro que se imp\u00f5e \u00e0 nossa chegada. <em>Ao principio est\u00e1 o ex\u00edlio<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><em>.<\/em> Nascemos lan\u00e7ados a um mundo habitado pela linguagem, exilados ao campo da linguagem. A linguagem \u00e9 nossa p\u00e1tria e nosso ex\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Exilados da linguagem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO ex\u00edlio \u00e0 linguagem \u00e9 o ex\u00edlio do qual ningu\u00e9m poder escapar, salvo os autistas\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.. Esses sujeitos escapam ao equ\u00edvoco da linguagem ao sentido. Resguardando-se deste, se encontram em um modo de ex\u00edlio, o autoex\u00edlio do Outro, exilados do discurso e do la\u00e7o. O retraimento e o fechamento sobre si mesmo \u00e9 a cara vis\u00edvel desse ex\u00edlio. O mutismo, a fuga da olhar, a reten\u00e7\u00e3o dos esf\u00edncteres, entre outras manifesta\u00e7\u00f5es surgem como um modo de defesa do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de <em>corpo-carapa\u00e7a<\/em>, funciona como uma borda que faz limite frente ao Outro,\u00a0 e lhe permite defender-se das manifesta\u00e7\u00f5es do Outro<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Sem borda, o autista fica desprotegido frente ao murm\u00fario da lal\u00edngua do qual busca defender-se. Ainda que no in\u00edcio da vida, o autista possa inserir-se no mundo fazendo uso de alguns significantes, este se det\u00e9m j\u00e1 que o \u201cconjunto do banho da linguagem no qual est\u00e1 imerso n\u00e3o cessa (&#8230;) de vibrar todos os equ\u00edvocos poss\u00edveis da lal\u00edngua\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A neo-barreira corporal forjada pelo autista pode ser tomada ent\u00e3o como um espa\u00e7o para <em>transformar o ru\u00eddo fundamental da l\u00edngua<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup><strong>[6]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>. \u00e9 um lugar aonde atrav\u00e9s da recorr\u00eancia ao mesmo e \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, tenta fazer um tratamento deste. As tentativas ser\u00e3o incessantes para tentar reduzir os equ\u00edvocos \u00e0 algo calcul\u00e1vel e previs\u00edvel. \u201c O car\u00e1ter aut\u00edstico desta estrutura reside no fato de que um autista possa querer interpretar a l\u00edngua de uma maneira inteiramente redut\u00edvel \u00e0 um sistema de regras. (&#8230;) sem equ\u00edvocos poss\u00edveis\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. Assim vemos que a recorr\u00eancia ao n\u00famero ou as imagens \u00e9 uma forma privilegiada por v\u00e1rios autistas, que tentam libertar-se de toda carga significante e de sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Renascer ao Outro sob uma l\u00edngua privada<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>O caso de Daniel Tammet e sua rela\u00e7\u00e3o aos n\u00fameros podem nos ensinar \u00e0 respeito. Autista brit\u00e2nico, escritor e poliglota, Tammet confessa que sempre se sentiu estrangeiro \u00e0 seu pa\u00eds, estrangeiro \u00e0 lingua inglesa e aos que a falavam. Sua l\u00edngua materna &#8211; nos diz &#8211; s\u00e3o os n\u00fameros. Estes sempre estiveram presentes na sua vida desde muito cedo e vieram ao seu resgate muito antes do que as palavras. Quando pequeno, diante suas intermin\u00e1veis crises de choro, somente o balanceio sobre uma manta o tranquilizava. Assim tamb\u00e9m, os golpes de cabe\u00e7a contra um muro eram recorrentes e se acentuavam face \u00e0 situa\u00e7\u00f5es que lhe geravam ang\u00fastia. Logo, aos sete anos os n\u00fameros vieram \u00e0 ele outorgando significa\u00e7\u00f5es privadas \u00e0 seu mundo. Os n\u00fameros se converteram assim em seu ref\u00fagio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto o balanceio como os n\u00fameros s\u00e3o previs\u00edveis e calcul\u00e1veis. Tammet se apoiou na <em>certitude de sua l\u00edngua num\u00e9rica<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup><strong>[8]<\/strong><\/sup><\/a> <\/em>para fazer frente \u00e0 um mundo ca\u00f3tico e incompreens\u00edvel. Os n\u00fameros como l\u00edngua privada permitiram \u00e0 Tammet n\u00e3o somente decodificar o mundo em que nasceu, traduzir-lo e dar-lhe ordem, sen\u00e3o que lhe permitiu fazer um tratamento deste resguardando-o do equ\u00edvoco da l\u00edngua. Um tempo depois seu amor pelos n\u00fameros o aproximou dos livros, da literatura e das l\u00ednguas. Ou seja &#8211; para dizer com Miller- ele fez d\u00f3cil ao novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, o caso de Tammet pode nos ensinar sobre a orienta\u00e7\u00e3o na cl\u00ednica do autismo. O acompanhamento terap\u00eautico deve poder alojar os achados e inven\u00e7\u00f5es do sujeito. Sob transfer\u00eancia, tornar poss\u00edvel a composi\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o ao Outro, de um novo nascimento, <em>apr\u00e8s-coup<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup><strong>[9]<\/strong><\/sup><\/a><sup>.<\/sup><\/em>. Partir dos achados dos autistas \u00e9 apoiar-se na lal\u00edngua privada do ser falante e respeitar sua posi\u00e7\u00e3o de ex\u00edlio singular, afastados de todo ideal de normaliza\u00e7\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Alberti, C. \u00ab\u00a0L\u2019exil et l\u2019identification\u00a0\u00bb. <em>Exils, regards psychanalytiques<\/em>, Association Genevoise de Psychologues. 2019. p. 56<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Ansermet, F. \u201cL\u2019exil et la s\u00e9paration\u201d. <em>Exils, regards psychanalytiques<\/em>, Association Genevoise de Psychologues. 2019. p. 72<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Brousse, M-H. \u201cExilio y Lenguas\u201d, Conferencia publicado en Radio Lacan<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Laurent, E., La bataille de l\u2019autisme. Paris, Navarrin\/Le Champ Freudien, 2012 p. 65<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Miller, J-A. Laurent, E., Maleval, J.C., Scjejtman F. Tendlraz, S. Estudios sobre el autismo. Buenos Aires, Diva, 2014, p. 37<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Laurent, E. <em>Op. Cit<\/em>.\u00a0 p. 91<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> <em>Ibidem<\/em>. p.40<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Tammet, D. Chaque mot est un oiseau qu\u2019on apprendre \u00e0 chanter. Paris, Les arenes, 2017, p. 11<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Ansermet, F. Predire l\u2019enfant. Paris, Presses Universitaires de France, 2019, p.38<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marlith Pachao <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6446,"menu_order":67,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"class_list":["post-6421","avada_portfolio","type-avada_portfolio","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/6421","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6421"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/6421\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6449,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/6421\/revisions\/6449"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6446"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=6421"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=6421"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=6421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}