{"id":6595,"date":"2015-08-02T19:00:30","date_gmt":"2015-08-02T22:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/fapol.org\/blog\/portfolio-items\/autismo-medicalizado-a-batalha-continua\/"},"modified":"2015-08-02T19:00:30","modified_gmt":"2015-08-02T22:00:30","slug":"autismo-medicalizado-a-batalha-continua","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/blog\/portfolio-items\/autismo-medicalizado-a-batalha-continua\/","title":{"rendered":"Autismo Medicalizado: A Batalha Continua"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1248px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"autor\" style=\"text-align: justify;\">Por <strong>F\u00e1tima Sarmento<\/strong><\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A recente indica\u00e7\u00e3o da Risperidona, pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, para o tratamento do sintoma autista, reacende nosso temor de que a batalha do autismo esteja mais a servi\u00e7o dos interesses das multinacionais farmac\u00eauticas do que da preserva\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da subjetividade de cada autista, tratado um a um. Agn\u00e8s Aflalo, no seu livro\u00a0<i>Autismo: novos espectros, novos mercados\u00a0<\/i>[1] admite que, na atualidade, a inf\u00e2ncia tornou-se ref\u00e9m permanente da ind\u00fastria do medicamento. Segundo a autora, as doen\u00e7as que estar\u00e3o na moda no futuro s\u00e3o decididas hoje nos escrit\u00f3rios de marketing dos grandes laborat\u00f3rios, e \u00e9 a eles que devemos a emerg\u00eancia de dois novos alvos: as crian\u00e7as e os idosos A crian\u00e7a \u00e9 uma presa f\u00e1cil para estimular as vendas. Ainda faz parte do jogo ampliar os crit\u00e9rios de uma doen\u00e7a, como no caso do autismo. Depois da moda da hiperatividade (TDAH), lan\u00e7ou-se a moda do transtorno bipolar juvenil (ETB), fazendo explodir a venda de antidepressivos. Surge a p\u00edlula da obedi\u00eancia para as crian\u00e7as catalogadas como &#8220;hiperativas&#8221;; na sequ\u00eancia, a p\u00edlula da felicidade para as catalogadas como &#8220;deprimidas&#8221; e, agora, no Brasil, o autismo consegue a fa\u00e7anha de se fazer identificar pelo p\u00fablico com um medicamento em particular: a Risperidona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pacote da medicaliza\u00e7\u00e3o para tratamento do sintoma autista sugere tomar o autismo como uma enfermidade, e n\u00e3o como um &#8220;funcionamento subjetivo singular&#8221;. Sabemos que as perturba\u00e7\u00f5es apresentadas pelos sujeitos autistas fazem sofrer o Outro\u2013 tanto familiar quanto escolar -, da\u00ed o autismo ser considerado como um dos nomes do mal-estar contempor\u00e2neo. Todos querem nomear uma causa, decifrar o enigma que envolve esses sujeitos. Trata-se, na verdade, de uma perturba\u00e7\u00e3o que n\u00e3o chega a fazer para o pr\u00f3prio sujeito um sintoma, uma vez que n\u00e3o se corporiza, e isso se deve ao fato de, no autismo, a representa\u00e7\u00e3o do corpo como unidade imagin\u00e1ria n\u00e3o estar sequer adquirida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem sido comum na cl\u00ednica receber pais de crian\u00e7as diagnosticadas como autistas, que viajam duas vezes no ano para os Estados Unidos e retornam com os filhos medicados e convictos de que o autismo se deve a um d\u00e9ficit gen\u00e9tico ou \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o na primeira inf\u00e2ncia, ou ainda, ao tipo de alimenta\u00e7\u00e3o ingerida pela crian\u00e7a. De maneira geral, os pais se sentem mais aliviados quando encontram uma causa para a perturba\u00e7\u00e3o do filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, o que funda a estrutura \u00e9 a insond\u00e1vel decis\u00e3o do ser. N\u00e3o d\u00e1 para sondar o que leva uma crian\u00e7a muito nova a tomar a decis\u00e3o de se fazer sem o Outro como \u00e9 o caso do autismo. O nascimento de uma crian\u00e7a, conforme Caroz, [2] n\u00e3o responde a nenhum programa preconcebido, nenhuma garantia de que as coisas v\u00e3o dar certo. Caroz insiste que, salvo no sonho de clonagem da ci\u00eancia, ningu\u00e9m pode saber antecipadamente as coordenadas subjetivas de uma crian\u00e7a ao nascer. O trauma para a psican\u00e1lise tem a ver com a conting\u00eancia. Ele prov\u00e9m do modo como cada um goza da l\u00edngua materna criando seu dialeto singular, chamado por Lacan de al\u00edngua. Muitas vezes, ali onde deveria haver um encontro com o olhar do Outro, ocorreu um desencontro que impossibilita a crian\u00e7a de dar significa\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a do Outro. A ideia do trauma como conting\u00eancia libera a psican\u00e1lise da pergunta sobre a causa e de atribuir aos pais a culpa pela causalidade do autismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos que, em alguns casos, a medica\u00e7\u00e3o pode fazer-se necess\u00e1ria, mas o que se observa na atualidade \u00e9 um abuso, um uso indiscriminado de medicamentos em crian\u00e7as pequenas, diagnosticadas por professores, pedagogos, diretores de escola, os quais se arvoram a etiquetar as crian\u00e7as. A psican\u00e1lise no seu rigor \u00e9tico evita diagnosticar crian\u00e7as pequenas, considerando que est\u00e3o em momento de efetua\u00e7\u00e3o de estrutura. Muitas crian\u00e7as autistas s\u00e3o diagnosticadas como deficientes ou como psic\u00f3ticas, e muitas psic\u00f3ticas s\u00e3o diagnosticadas como autistas. Na Argentina, realizou-se a primeira investiga\u00e7\u00e3o do Departamento de Autismo e Psicose na Inf\u00e2ncia sobre Diagn\u00f3stico e Tratamento, durante os anos 2010-2012.[3] De 197 casos recolhidos, faziam uso de algum tipo de medica\u00e7\u00e3o 172 casos. De 70 casos medicados, correspondiam ao diagn\u00f3stico de autismo 25 casos medicados com Risperidona. Essa investiga\u00e7\u00e3o mostra que apesar da Risperidona estar sendo agora apresentada como uma novidade associada ao tratamento do autismo, essa medica\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 no mercado h\u00e1 um bom tempo. No Brasil, os psiquiatras utilizam a Risperidona para pacientes portadores de transtornos diversos e n\u00e3o especificamente para o autismo. Ainda que n\u00e3o existisse uma medica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para o autismo, as crian\u00e7as autistas estavam sendo medicadas da mesma maneira que as psic\u00f3ticas. Na psican\u00e1lise, h\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o entre autismo e psicose. N\u00e3o h\u00e1 passagem do autismo para a psicose nem para a neurose. As perturba\u00e7\u00f5es na linguagem apresentadas por crian\u00e7as pequenas n\u00e3o devem ser confundidas com o autismo. \u00c9 preciso escutar essas crian\u00e7as, sabendo que n\u00e3o se trata de normatiz\u00e1-las. Supor um sujeito significa tamb\u00e9m antecip\u00e1-lo. Cabe ao analista supor que nos signos do gozo trazidos pela crian\u00e7a, na sess\u00e3o, o sujeito comparece e \u00e9 da\u00ed que pode surgir a dimens\u00e3o do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>A cria\u00e7\u00e3o do Observat\u00f3rio Inf\u00e2ncia Medicalizada<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Federa\u00e7\u00e3o Americana de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (FAPOL), com o apoio do presidente da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, estabeleceu neste ano de 2014 a cria\u00e7\u00e3o de quatro observat\u00f3rios permanentes, sobre temas concernentes \u00e0 psican\u00e1lise em sua rela\u00e7\u00e3o com os diversos contextos sociopol\u00edticos nos quais se desenvolve nossa pr\u00e1tica nas tr\u00eas Escolas da Am\u00e9rica: a EOL, a EBP e a NEL. Um dos observat\u00f3rios ser\u00e1 dedicado \u00e0 Inf\u00e2ncia Medicalizada. Os coordenadores desse observat\u00f3rio s\u00e3o: pela EOL, Gustavo Stiglit; pela EBP, F\u00e1tima Sarmento e pela NEL, Aliana Santana. Para compor a equipe da EBP, temos T\u00e2nia Abreu (BA), Paula Bors\u00f3i (RJ) e M\u00f4nica Bueno (SP).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste primeiro momento, os coordenadores das tr\u00eas escolas est\u00e3o definindo a modalidade de trabalho para, em breve, apresentar um relat\u00f3rio sobre esse tema. Se algum colega desejar aproximar-se do tema sobre a Inf\u00e2ncia Medicalizada, poder\u00e1 entrar em contato com a coordena\u00e7\u00e3o do observat\u00f3rio.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">NOTAS<\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Aflalo, Agn\u00e8s.\u00a0<i>Autismo<\/i>: novos espectros, novos mercados. Tradu\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 Antunes da Costa. Petr\u00f3polis, RJ: KBR, 2014. (Cole\u00e7\u00e3o Psican\u00e1lise e Ci\u00eancia).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Caroz, Gil. O que \u00e9 perseguido.\u00a0<i>Lacan Cotidiano<\/i>, n. 402. Vers\u00e3o em Portugu\u00eas. EBP-Veredas. Dispon\u00edvel em:&lt;<a href=\"http:\/\/www.lacanquotidien.fr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.lacanquotidien.fr<\/a>&gt;.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Tendlarz, Silvia Elena; Alvarez Bayon, Patricio. \u00bf<i>Que \u00e9s el autismo<\/i>? infancia y psicoan\u00e1lisis. Buenos Aires: Colecci\u00f3n Diva, 2013.p. 114-115.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por F\u00e1tima Sarmento<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4960,"menu_order":191,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[105,106,102],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"class_list":["post-6595","avada_portfolio","type-avada_portfolio","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","portfolio_category-articulos-infancias-pt-br","portfolio_category-infancias-pt-br","portfolio_category-observatorios-pt-br"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/6595","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6595"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/6595\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4960"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6595"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=6595"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=6595"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/fapol.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=6595"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}