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Por Eliane Costa Dias

A multiplicidade e a diversidade com que proliferam novas propostas de identidades e de modos de vivenciar o corpo e a sexualidade, desafiam os psicanalistas a saberem abordar essas trans-formações e seus efeitos: na clínica, na relação com a teoria, no debate com outros discursos, no exercício da ética e da política da psicanálise.

Desde a segunda metade do século XX, as questões de gênero configuram um acirrado debate que resultou na expansão e proliferação dos chamados Estudos de Gênero que, ao colocarem a ênfase sobre as determinantes sociais e as identificações imaginárias, deixam de fora a noção de inconsciente e a lógica do não-todo que a psicanálise sustenta.

Por outro lado, na clínica, recebemos, cada vez mais, sujeitos atravessados por questões em relação à identidade sexual: hetero/homo/bissexuais, cisgêneros, transexuais, travestis, não binários, assexuados, gênero fluído…

No Brasil, recente relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais[1] indica que em 2020, comparado a 2019, verifica-se um aumento de 34% nos casos de suicídio entre indivíduos transexuais. Constatamos, também, o crescimento de casos de crianças que afirmam não se reconhecer no sexo que lhes é atribuído, afirmando muito cedo a convicção de terem nascido em um “corpo errado”.[2]

Uma clínica da sexuação se faz cada vez mais presente no caso a caso da psicanálise. Como as referências deixadas por Freud e por Lacan em relação à sexuação nos ajudam a abordar essas mutações da época e do parlêtre?

As questões de gênero nos remetem, ainda, à problemática da segregação que atravessa historicamente a população LGBTQI+, particularmente na América Latina, onde a trajetória das sexualidades não hegemônicas é marcada por experiências de discriminação, violência e desrespeito a direitos fundamentais.

O trabalho do Observatório de Gênero, Biopolítica e Transexualidade se configura como um projeto de investigação em torno destes três significantes – Gênero, Biopolítica, Transexualidade -, orientado a partir de três eixos:

Epistêmico: buscando discutir como o conhecimento teórico e clínico da psicanálise pode contribuir para pensar as transformações em relação ao gênero, às identidades e às práticas discursivas. Avaliando, igualmente, como esses movimentos interpelam e provocam revisões e avanços na teoria psicanalítica.
Clínico: visando precisar os elementos que definem a especificidade do tratamento psicanalítico ao mal-estar desses sujeitos que se encontram tomados pelas questões de gênero, nos deixando ensinar, uma vez mais, pela clínica.
Político: não recuando frente ao desafio de inserir a psicanálise no debate fortemente aberto pelos movimentos LGBTQI+. Nos interessa pensar a contribuição da psicanálise para esse momento histórico de construções e desconstruções. Mas nos interessa, também, escutar e aprender com aqueles que podem dizer das múltiplas e complexas dimensões dessa realidade de biopolítica dos corpos e do sexual que nos afeta a todos.

NOTAS

Publicado em 08/09/2020: https://agenciaaids.com.br/noticia/aumento-do-numero-da-taxa-de-suicidio-entre-pessoas-trans-preocupam-ativistas/
Roy, D. Quatro perspectivas sobre a diferença sexual. In: CienDigital, n° 23.