Os algoritmos do saber: psicanálise e universidade

Carolina Koretzky

Psicanalista membro da Escole de la Cause Freudianne e da Associação Mundial de Psicanálise. Ensina no Departamento de Psicanálise da Universidade Paris 8 e no Mestrado em Teoria Psicanalítica Lacaniana na Universidade Nacional de Córdoba, Argentina.

E-mail: carokor@yahoo.fr

RESUMEN

Tomando la Inteligencia Artificial como un síntoma de nuestra época, este texto propone una reflexión sobre sus efectos en la relación con el saber, la investigación universitaria y la transmisión del psicoanálisis. Lejos tanto de la tecnofilia como de la tecnofobia, interroga la promesa contemporánea de un saber totalizado y sin fisuras, sostenido por el Otro digital. A partir de los aportes de los grupos de investigación de la Red Universitaria Americana (RUA), se destaca la importancia de la errancia, la contingencia y el acto en la producción del saber, dimensiones amenazadas por una lógica algorítmica orientada por la respuesta inmediata y el cálculo. El texto enfatiza la diferencia entre responder y enseñar, defendiendo una transmisión fundada en la enunciación, el deseo y la apertura al no saber. Frente a la creciente presencia de la IA en la universidad, se sostiene que la tarea del psicoanálisis consiste en preservar el lugar del cuerpo, del goce y de la singularidad, explotando la tensión entre el discurso universitario y el discurso analítico como condición para un saber vivo e inventivo.

Palabras clave: Inteligencia Artificial; Psicoanálisis; Universidad; Transmisión; Saber.

RESUMO

Tomando a Inteligência Artificial como um sintoma de nossa época, este texto propõe uma reflexão sobre seus efeitos na relação com o saber, na pesquisa universitária e na transmissão da psicanálise. Distante tanto da tecnofilia quanto da tecnofobia, interroga a promessa contemporânea de um saber totalizado e sem falhas, sustentado pelo Outro digital. A partir das contribuições dos grupos de pesquisa da Rede Universitária Americana (RUA), destaca-se a importância da errância, da contingência e do ato na produção do saber, dimensões ameaçadas por uma lógica algorítmica orientada pela resposta imediata e pelo cálculo. O texto enfatiza a distinção entre responder e ensinar, defendendo uma transmissão fundada na enunciação, no desejo e na abertura ao não saber. Diante da crescente presença da IA na universidade, sustenta-se que a tarefa da psicanálise consiste em preservar o lugar do corpo, do gozo e da singularidade, explorando a tensão entre o discurso universitário e o discurso analítico como condição para um saber vivo e inventivo.

Palavras-chave: inteligência artificial; psicanálise; universidade; transmissão; saber.

ABSTRACT

Considering Artificial Intelligence as a symptom of our time, this paper reflects on its effects on the relationship to knowledge, university research, and the transmission of psychoanalysis. Avoiding both technophilia and technophobia, it questions the contemporary promise of a totalized and seamless form of knowledge sustained by the digital Other. Drawing on the contributions of the research groups of the American University Network (RUA), the text highlights the importance of wandering, contingency, and subjective act in the production of knowledge—dimensions threatened by an algorithmic logic driven by immediate answers and calculation. It emphasizes the distinction between answering and teaching, defending a mode of transmission grounded in enunciation, desire, and openness to not-knowing. Faced with the growing presence of AI in the university, the paper argues that psychoanalysis must preserve the place of the body, jouissance, and singularity, exploring the tension between university discourse and analytic discourse as a condition for a living and inventive knowledge.

Keywords: artificial intelligence; psychoanalysis; university; transmission; knowledge.

Bom dia a todos! Agradeço o convite para esta conversação da RUA, conversação das Redes da FAPOL que teremos hoje, sobre “Algoritmos do saber: Psicanálise e Universidade”. Agradeço aos organizadores, a todos aqui presentes e a cada um dos grupos de pesquisa pelos excelentes informes, os quais hoje vão nos permitir realizar uma conversação sobre um tema absolutamente fundamental, necessário, urgente. Algumas palavras preliminares. Ressaltarei alguns pontos e lançarei a discussão. Eu aprendi muito através da leitura dos informes que, como se percebe, são o fruto de um verdadeiro trabalho de pesquisa e de reflexão. Como também foi dito no segundo informe e retomado no título da atividade preparatória da NEL, estamos hoje no tempo de compreender.

Hoje, a IA se apresenta como algo útil ao qual teríamos que nos adaptar sem reflexão. Esse tempo de compreender é aquele obtido pelas paixões que, às vezes, a IA desperta. Não cair nem na tecnofilia nem na tecnofobia para poder questionar esse novo fenômeno mundial como um sintoma da época, como uma resposta que marca e marcará a subjetividade do ser falante, que questiona a relação do sujeito com o saber e a modalidade de nossa presença na universidade é algo que está na linha de frente. Evitemos o risco da leitura ideológica, já que denunciar reforça o discurso criticado; oponhamos a interpretação à denúncia, ou seja, procuremos capturar o fundamento ideológico em jogo e vejamos como e a que real a IA está respondendo como sintoma de nossa época, Antoinette Rouvroy (2024), pesquisadora francesa que aborda esse tema, diz que a grande paixão que a IA desperta é uma resposta a uma crise maior da representação humana. Como se, hoje, as representações e os conceitos produzidos pela comunidade humana aparecessem como suspeitos, como parciais demais, marcados por poder, gênero, colonialismo. Há uma suspeita de parcialidade ideológica na representação da produção de saber humano. Daí esse “deslocamento do lugar do saber ao Outro digital”, como se assinala tão bem no eixo 1; essa “autoerótica do saber”, como Miller (2016) assinala em sua conferência “Em direção à adolescência”, na qual o sujeito busca um saber fazendo a economia daquilo que implica a extração do saber no campo do Outro e a confrontação com a incerteza do enigma da demanda e do desejo.

Neste nosso mundo, os seres falantes sabem que o Outro da tradição é um semblante. Hoje, sabemos que os significantes-mestres são flutuantes. O significante já não é mestre a ponto de amarrar o sujeito contemporâneo, já não se apresenta como mestre de seu destino. E, a partir disso, podemos pensar certos sintomas como uma tentativa de enrijecimento. Os discursos se tornam rígidos e pouco dialetizáveis, os efeitos de certeza são cada vez maiores, mas são a resposta sintomática para amarrar-se diante de uma flutuação cada vez maior do significante-mestre e da inconsistência do Outro.

A IA é um mito que se apresenta nesse contexto. É uma crença, uma espécie de utopia, na qual a extrema complexidade do mundo em crise permanente no qual vivemos – da incerteza ontológica, do mistério do ser falante – será milagrosamente resolvida nessa “caixa-preta” dos algoritmos. Sobre essa “caixa-preta” e sobre os modelos algorítmicos, os seres falantes projetam uma promessa, aquela da totalização do saber, como indica Éric Laurent (2024), em “A ilusão do cientificismo”: “alimentam o sonho de saber tudo de cada um e de poder calcular o que o outro quer”. Utopia que nega a opacidade do mundo, utopia de um lugar onde seja finalmente possível metabolizar a complexidade que sempre nos escapa, esse impossível, esse furo e esse caroço de toda representação.

Trata-se da tentativa de suturar a dimensão inconsciente, o inconsciente em sua dimensão de determinação e de discurso do Outro que nos aliena, mas, sobretudo, do inconsciente em sua dimensão de ato, de irrupção, de contingência. Esse inconsciente ao qual Lacan (1964/1985) nos inaugura no Seminário 11, o inconsciente-surpresa, “aquilo pelo que o sujeito se sente ultrapassado, pelo que ele acaba achando ao mesmo tempo mais e menos do que esperava” (p. 30), isso que se encontra e que torna a escapar de novo instaurando, assim, “a dimensão da perda”.

Vou começar com duas perguntas que dirijo a todos para iniciar a conversação. Depois, poderei fazer perguntas mais específicas para cada eixo. Minha primeira pergunta é esta: sabemos, por ter feito e fazer um trabalho de pesquisa, o valor que a errância tem. No Seminário 21, Lacan falava da boa errância e, ainda que os tolos errem no imaginário, também há o bom tolo, aquele que erra no simbólico. Quantas vezes, enquanto estamos focados pesquisando um tema, de repente, encontramos um elemento imprevisível que altera completamente nossa busca e faz cair o edifício do que queríamos demonstrar. Trata-se de uma perda que nos obriga a repensar. Porque, por um lado, há nossa aposta na transmissão; mas também há o trabalho de pesquisa do aluno que acompanhamos, que é solitário. Pergunto-me, a partir dessa modalidade de pesquisa que faz uso da IA, onde vão ficar o lugar dessa satisfação ligada à errância e o lugar da contingência na produção solitária do aluno.

Por outro lado, seja na educação, seja na justiça, ou na medicina, o uso da IA sustentada por essa utopia de um saber sem furo necessariamente destitui o ato do sujeito, do estudante e do docente. Elimina-se a dimensão do ato e do desejo que isso comporta. Nesse ponto, todos os informes se sobrepõem e convergem em sempre manter no horizonte a separação entre responder e ensinar. Relançar, a partir da própria enunciação e da libra de carne, o couro que é preciso pôr em jogo; abrir, a cada vez, o espaço do incalculável, do que resiste ao cálculo.

Dirijo, então, uma segunda pergunta a todos, para conversarmos em seguida. Podemos deslocar um pouco a questão, uma vez que já temos clara a orientação que é a nossa. Cito algumas frases de cada eixo que fui encontrando: abrir um vazio, habilitar uma interrogação, esvaziar o saber, furar, não abandonar o lugar de causa (essa fórmula me encantou). Minha pergunta é: os estudantes que responderam testemunham como, ainda hoje, o ensino requer uma presença desejante – mas minha pergunta é… até quando? As futuras gerações, impregnadas e configuradas subjetivamente nessa modalidade sem implicação de obtenção do saber, sem divisão… até quando elas serão tolerantes com nosso ato? Até onde e quando se deixarão furar? Pensemos no que acontece hoje e que Miller destacou através do novo cogito “sou o que eu digo”. Hoje, há espaços onde questionar é equivalente a insultar, onde a interpretação é impossível e onde encontramos enunciados de certeza intolerantes à metáfora e à metonímia. Do mesmo modo, abro para a discussão: parece-me que vamos ter, por um lado, seguir apostando pela nossa orientação, mas estando muito atentos aos efeitos de rechaço e de intolerância que, porventura, possam se acentuar com o uso da IA.

Terminarei dividindo com vocês um pequeno texto, belíssimo – o final da aula inaugural de Roland Barthes (2004), no Collège de France, que termina assim:

Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível. (p. 47)

O sabor. Em um texto de 1978, “Lacan por Vincennes”, Lacan fala da antipatia entre o discurso universitário e o discurso analítico. É preciso ultrapassar essa antipatia, dizia Lacan, e é isso que cada um dos eixos valorizou. Vamos ultrapassar a antipatia introduzindo aquilo que o saber universitário pretende dominar: o gozo, o corpo, a enunciação.

A partir dessas duas perguntas – virão outras – abro, então, nossa “saborosa” conversação.

REFERÊNCIAS

  • Barthes, R. (2004). Aula. Cultrix.

  • Lacan, J. (1985). O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (J.-A. Miller, Org.; M. D. Magno, Trad.). Jorge Zahar Ed. (Trabalho original proferido em 1964).

  • Lacan, J. (2010). Transferência para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes! Correio: Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, 65. (Trabalho original publicado em 1978).

  • Laurent, É. (2024). La ilusion del cientificismo. Virtualia: Revista Digital de la Escuela de la Orientación Lacaniana, 44. https://www.revistavirtualia.com/articulos/1022/algoritmos/la-ilusion-del-cientificismo-la-angustia-de-los-sabios

  • Miller, J.-A. (2006, agosto). La era del hombre sin atributos. Virtualia: Revista Digital de la Escuela de la Orientación Lacaniana, 15. http://www.revistavirtualia.com/articulos/519/destacado/la-era-del-hombre-sin-atributos

  • Miller, J. A. (2016). Em direção à adolescência. Opção Lacaniana, 72.

  • Rouvroy, A. (2024). Quand l’IA fait la loi. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=4uaogMZUCIY