Notas da Conversação: Os algoritmos do saber
Texto estabelecido por: Vinícius Lima (EBP/AMP) y Bárbara De Munno (estudiante de UFES)
RESUMEN
La Conversación – realizada por la Red Universitaria Americana (RUA), en el contexto del XII ENAPOL, en junio de 2025 – abordó los impactos de la inteligencia artificial (IA) en la subjetividad contemporánea. Los participantes debatieron la tensión entre saber y pseudo-saber, los efectos de la IA sobre los procesos de formación y la importancia de preservar la dimensión singular y deseante de la transmisión del saber en la universidad. Asimismo, problematizaron la falsa neutralidad de las IA generativas, destacando sus alineamientos con determinadas orientaciones éticas. Se concluye que el camino no consiste en rechazar la IA, sino en analizarla como un fenómeno característico de su época y desarrollar formas críticas de utilizarla, preservando aquello que, en la experiencia humana, escapa a la lógica algorítmica.
Palabras clave: inteligencia artificial; saber; universidad; transmisión; subjetividad.
RESUMO
A Conversação – realizada pela Rede Universitária Americana (RUA), no contexto do XII ENAPOL, em junho de 2025 – abordou os impactos da inteligência artificial (IA) na subjetividade contemporânea. Os participantes discutiram a tensão entre saber e pseudo-saber, os efeitos da IA sobre os processos de formação e a importância de preservar a dimensão singular e desejante da transmissão de saber na universidade. Problematizaram, também, a falsa neutralidade das IAs generativas, destacando seus alinhamentos a certas orientações éticas. Conclui-se que o caminho não é rejeitar a IA, mas analisá-la enquanto fenômeno característico de sua época e desenvolver formas críticas de utilizá-la, preservando aquilo que, na experiência humana, escapa à lógica algorítmica.
Palavras-chave: inteligência artificial; saber; universidade; transmissão; subjetividade.
ABSTRACT
The Conversation – held by the American University Network (Rede Universitária Americana) in the context of the XII ENAPOL, in June 2025 – addressed the impacts of artificial intelligence (AI) on contemporary subjectivity. The participants debated the tension between knowledge and pseudo-knowledge, the effects of AI on processes of formation, and the importance of preserving the singular and desiring dimension of the transmission of knowledge within universities. They also problematized the false neutrality of generative AI, highlighting its alignment with certain ethical orientations. The conclusion is that the appropriate response is not to reject AI, but to analyze it as a phenomenon of its time and to develop critical ways of using it, while preserving that which, in human experience, eludes algorithmic logic.
Keywords: artificial intelligence; knowledge; university; transmission; subjectivity.
Luiz Felipe Monteiro:
Lembrei-me de uma referência que me parece pertinente para pensar as consequências produzidas pelo saber da inteligência artificial no laço social. Trata-se de um texto de Adorno (1994/2008), no qual ele sustenta que os anúncios de horóscopo nos jornais constituem um pseudo-saber, pseudo-neutro, por estarem esvaziados de qualquer componente ideológico. Segundo Adorno (1994/2008), esses anúncios portam uma espiritualidade difusa que opera a serviço de certo conformismo, oferece consolação genérica e reafirma conceitos que caminham em direção à alienação, na linha de uma hipnose coletiva. Lembremos o que diz Freud (1921/2020) em “Psicologia das massas e análise do Eu”.
Parece-me que a inteligência artificial pode seguir essa mesma lógica, sobretudo ao considerar o que aponta Carolina sobre as diferentes gerações. Há apenas três ou quatro anos que as IAs adentraram em nossas vidas; estamos, portanto, ainda em uma espécie de primeira geração desse fenômeno. Refleti sobre a tensão, exposta na mesa, entre um pseudo-saber e um saber autêntico. Acredito que um saber autêntico – que não está só na psicanálise – é aquele que aponta para seu próprio limite. Trata-se de um saber que, ao invés de hipnotizar, como o pseudo-saber, direciona a um certo despertar. Não um despertar absoluto, posto que esse não é possível, mas que orienta à crítica, a uma construção que implica a singularidade de cada um. Considero essa distinção essencial para o avanço da discussão.
Jacquie Lejbowicz:
Frequentemente evocamos a preocupação com a continuidade da psicanálise na universidade. Hoje, contudo, creio que se questiona até mesmo a existência das universidades em si. Procurarei – ainda que seja difícil, às vezes – não recorrer à denúncia, que reforça os piores aspectos de seu objeto. Acredito que, se há algum ideal que a universidade sustenta – ao menos em nossos países –, ele está fortemente ligado à possibilidade de que a diversidade adentre na universidade, de que seja nela acolhida e dê lugar à ascensão social.
Creio que a foraclusão do amor produzida pelo capitalismo está intimamente ligada à lógica da IA, que pode e tende a ser utilizada para o extermínio da humanidade, ou para produzir a ideia de que não são necessários docentes, pessoas no processo de formação. Isso contradiz o que Freud mesmo nos legou, sobre como os alunos atentam-se à maneira pela qual alguém transmite um conhecimento – e como isso dá substância à transmissão.
Com a entrada da IA em cena, acredito que a urgência que Carolina levanta implica, para mim, refletir sobre o que fazer. Como sustentar uma posição que não recaia na denúncia, sem, contudo, ignorar que não é apenas a psicanálise que se vê ameaçada em sua continuidade? A própria universidade vem sendo veementemente atacada – ao menos na Argentina, ultimamente – e não só em termos orçamentários, mas, também, no enfraquecimento de sua transmissão, à sociedade, da importância de se graduar, de ser doutor… Ideais fortemente defendidos em outro momento, mas que, hoje em dia, se veem afetados pela degradação dos saberes que a universidade pode produzir.
Ariel Hernández:
Gostaria de assinalar a distinção entre a universidade e certas faculdades que a compõem. Aquelas que trabalham diretamente com a subjetividade de sua época não são como as que tratam de matemática ou física, campos nos quais não se trata, como frequentemente é dito, de ser a favor ou contra. Entretanto, quando se trata de certas transmissões, de iniciativas como a de uma faculdade de psicologia – na Universidade de Buenos Aires, por exemplo – que propõe práticas virtuais, com pacientes virtuais, com realidade virtual, torna-se necessário um nível elevado de atenção e problematização. Agrada-me esta ideia do trabalho que tem dimensões ética, política e clínica; que interroga o que fazer diante de cada proposta que lhe dá conteúdo, com esta dimensão do fundamental, necessário e urgente, como trazia Carolina.
Isso me leva à importância de estarmos advertidos de que, ao menos na faculdade de psicologia da Universidade Nacional de La Plata – onde há práticas pré-profissionais presenciais no quinto e sexto anos – já se fazem notar algumas dificuldades, como mencionava Ricardo Seldes. Há cada vez menos analistas praticantes de orientação lacaniana, ou mesmo de outras orientações, e a universidade está se preenchendo de outras perspectivas. Parece-me importante considerar esse dado, pois sinto que os sujeitos correm o risco de rechaçar ou de amar a metonímia incessante da IA.
Proponho, em vista disso, a pergunta de como tornar a psicanálise transmissível e desejável diante do fomento das realidades virtuais por parte da tecnociência, que parecem dar continuidade aos “joguinhos” universitários na prática profissional.
Heloisa Caldas:
Concordo com os que os colegas trouxeram a respeito dos modos de posicionamento perante a IA, não somente no ensino da psicanálise na universidade – um pouco ensino, um pouco transmissão: uma questão eterna para nós –, mas, sobretudo, no que Carolina trouxe sobre o “sabor”. Confesso que, antes do convite de Inés – que não poderia recusar, enquanto membro da Rede Universitária Americana –, não tinha conhecimento algum sobre a inteligência artificial. Vi-me, então, na necessidade de compreender do que se tratava.
Para tanto, recorri à minha irmã – que, por trabalhar com tradução, conhece melhor estes assuntos – e aprendi a fazer perguntas à IA. Indaguei-lhe seu nome, o que seria “inteligência” e o que seria “artificial”. Sua resposta ao último questionamento em particular chamou-me atenção, pois trazia os substantivos “arte” e “artifício”. Suas definições de arte eram as mais banais, mas, sobre o artifício, ela chega a um ponto em que diz “se trata de um truque”.
Recordei-me, então, do truque (truc) do qual Lacan (1973-1974) fala em seu vigésimo primeiro seminário, esse saber-fazer-aí. Tal associação, inclusive, levou-me a realizar uma intervenção posterior em que procurei distinguir o saber-fazer da IA – similar ao do sintoma, que é o algoritmo do sujeito – do saber-fazer ao qual uma análise pode conduzir, por meio da ruptura daquilo que não cessa de se inscrever sintomaticamente.
A partir disso, encontrei-me pensando que seria interessante, na universidade, operar, em certa medida, com essa lógica: fazer que se brinque com a IA; que se trabalhe com a IA sem tomá-la como um saber dogmático. Afinal, sempre houve a busca intensa por um saber estabelecido que tornasse o sujeito capaz de lidar com o real da vida e da morte. Acredito que a inteligência artificial seja sua forma mais contemporânea, tecnológica e cientificista – que, embora não constitua uma religião, provavelmente será tratada como tal por diversos jovens. Em outro trabalho, uma colega compartilhou que, na França, os jovens chamam de “consulta ao totem” o ato de perguntar algo às IAs. Já existe, portanto, uma certa mística da inteligência artificial como quem trará todas as respostas.
Há, também, casos de pessoas que têm se suicidado porque procuram nas IAs respostas, mas delas recebem apenas retornos sem – por assim dizer – alma: sem estilo, sem saber-fazer-aí com a prática clínica, sem furo.
Diante disso, parece fundamental manter uma posição advertida quanto aos riscos envolvidos nas IAs, sem, contudo, recusar o uso dessas ferramentas. Trata-se, talvez, de sustentar um modo de operar que permita jogar com a inteligência artificial a partir do nosso próprio saber-fazer-aí, precisamente com o que não se sabe.
Aline Mendes:
Minha pergunta caminha na direção do que Carolina Koretzky afirmou ao fim de sua fala, sobre esta ser uma questão de urgência. As IAs têm, progressivamente, ocupado maior lugar na própria produção do saber na universidade. Nos perguntamos, portanto, qual a relação de tal fenômeno com o adoecimento e a medicalização crescentes dos estudantes. É interessante, posto que vários desses adoecimentos concernem o saber; trazem algo que se dirige à universidade. Poderíamos, de alguma forma, articular essas duas problemáticas?
Gilson Iannini:
Gostaria de realizar três adendos.
Antes de tudo, é importante compreender que a entrada da inteligência artificial no mundo é um fato sem volta. Sabemos, com clareza, que a IA não é neutra e que a concentração de poder se fará presente como nunca antes. Talvez nem estejamos mais no que se denomina Capitalismo. Talvez estejamos diante de outro sistema, como a hipótese nomeada contemporânea do “tecnofeudalismo”.
Acredito, em segundo lugar, ser bastante provável que todos os efeitos na subjetividade que temos discutido aqui de fato ocorram. Há, entretanto, uma nuance geracional. Minha filha de doze anos alega que acredito muito nas IAs, ao passo que ela pergunta sempre as fontes por trás da informação ofertada. O problema, portanto, é de geração. Há quem experienciou a transição e há quem já nasce desconfiado. Penso que os jovens são muito menos tolos do que supomos em algumas falas.
O terceiro ponto que gostaria de demarcar é o potencial de formalização que as IAs propiciam aos psicanalistas. Devemos lembrar que sua maioria se baseia em teorias de grafos e de redes, que Lacan explorou nas décadas de 1950 e 60 – com os recursos que existiam em tal período. Embora tais teorias tenham conhecido importantes desenvolvimentos desde então, seus fundamentos permanecem, em grande medida, os mesmos. Hoje, dispomos de instrumentos que ampliam significativamente nossas possibilidades de formalização: desde a construção de grafos que permitem certas leituras dos sonhos até o recurso a teorias dos nós – como as tranças – na abordagem de casos clínicos, possibilitando, por exemplo, a localização de lapsos. É necessário aprender a utilizá-los, evidentemente; todavia, temos muitos recursos que estão disponíveis a nós – recursos que são bastante, digamos, saborosos.
Carla:
Senti-me particularmente tocada hoje, sobretudo por ocupar o lugar de analista em uma instituição. Os aprendizados que estou adquirindo hoje convergem, pouco a pouco, em um entendimento do que é o meu fazer na instituição.
Enquanto preceptora, não me sinto ameaçada pela IA, justamente porque há a dimensão da prática; da surpresa que se apresenta em cada caso clínico. Considero igualmente relevante o ponto levantado anteriormente sobre a necessidade de uma presença mais consistente nas instituições. Tenho a impressão de que, quando se falava em “infiltrar”, trata-se, na verdade, de uma infiltração dupla: como psicanalista na instituição, mas, também, no discurso do capitalismo.
Quando me formei em psicologia, o meu Trabalho de Conclusão de Curso foi justamente sobre psicanálise e universidade. Eu não entendia, naquela época, que já havia ali o significado de certa infiltração, de certa clandestinidade, que hoje consigo relacionar à minha prática dentro da instituição. Tenho a impressão de que é fora do consultório que a psicanálise é mais viva na dimensão político-social.
Laura Valcarce:
Gostaria de retomar algumas questões diante da pergunta de Jacquie: o que fazer? Parece-me fundamental abordar os temas que circulam no laço social e que incidem diretamente sobre a subjetividade – especialmente a dos jovens – como forma de transmitir, de algum modo, a potência da orientação psicanalítica lacaniana. Afinal, é precisamente nos pontos em que nos retiramos que outros discursos tendem a avançar. A inteligência artificial se impõe em peso na universidade, e caso não façamos uma leitura disso, outros colegas, outras orientações o farão. Essa me parece uma questão fundamental para aqueles de nós que estão na universidade.
Há, além disso, algo na transmissão que excede os limites da aula formal. Convidar os alunos ao teatro, por exemplo, também constitui uma forma de transmissão da psicanálise, na medida em que implica a oferta de um modo de leitura. E, nesse ponto, é notável o engajamento dos alunos.
Desejo retomar, também, o que Carolina trazia acerca da satisfação ligada à errância. Creio que se obtém uma determinada satisfação quando, no ato de transmitir, capta-se uma certa ressonância – quando algo efetivamente se precipita nos alunos. Isso torna-se particularmente evidente nas práticas profissionais, quando lemos de semana a semana os informes dos alunos. Percebemos, ali, suas enunciações; como começam e como não são os mesmos ao final. Retomando, então, a distinção entre saber morto e saber vivo, bem como a questão de como trazer perguntas novas para os velhos textos, creio que isso se relaciona ao fato de não sermos – nós também – os mesmos, assim como as aulas que ministramos não são as mesmas: há um trabalho em curso.
Dessa forma, parece-me – e creio partilhar isto com outros colegas – que há uma satisfação quando algo disso é encarnado nos alunos: algo que diz do saber, mas também do amor, que não é foracluído; que se faz presente no ato de ensinar.
Antônio Teixeira:
Gostaria de acrescentar uma observação a respeito do uso do sintagma “inteligência artificial”, pois, se há uma característica que a inteligência artificial não possui, essa é, precisamente, a inteligência. Isso no sentido de que não se deve confundir proeza com inteligência. Se há algo que, na clínica, pode levar um analista ao tédio, é justamente a ostentação, por parte do analisante, de suas façanhas. O que os analistas buscam é inteligir, no sentido de intelligere, ler aquilo que está entre as linhas. E aquilo que se encontra entre as linhas corresponde justamente ao que não se deixa representar no discurso e que, por isso mesmo, suscita angústia, a causa do desejo. Por esse ângulo, não existe inteligência artificial, visto que não existe angústia artificial. Trata-se, a meu ver, de um ponto sensível daquilo que se escuta na clínica.
Nesse sentido, ao comentário de Carolina sobre “O rumor da língua”, em Barthes (1984/2012), eu acrescentaria a dimensão do afeto da angústia. De certa maneira, retomaria, também, o comentário do Fabian Fajnwaks sobre a carência de inteligência no ser falante ocorrer porque esse segue um programa de gozo. A inteligência artificial segue, similarmente, um programa de gozo – e é justamente no nível, comentado aqui, do erro e de uma certa celebração dele, que me parece importante enfatizar a angústia como algo coextensivo à inteligência.
Carolina Koretzky:
Gostaria de retomar algumas das intervenções – todas excelentes, ao passo que fazem surgir, cada uma, elementos diferentes para discussão.
Começarei pela de Antônio, porque nos permite realizar um certo retorno. Isto que Antônio diz sobre a angústia parece-me fundamental, visto que põe em questão justamente o que entendemos por inteligência. Há, nisso, um elemento essencial: se não ponderamos acerca do que seria a inteligência, então tomamos a ideia de uma inteligência artificial como algo dado, quando, na realidade, trata-se de uma questão de construção de linguagem. O que Antônio destaca – ainda – sobre o ponto da angústia é particularmente precioso, pois há, na inteligência humana, uma dimensão intrinsecamente ligada à relação com o Outro: com seu desejo, sua demanda e a angústia que daí advém.
Abordávamos, com Ana Viganó, justamente a questão da operação de um desvio que evite a confrontação direta com o Outro. Há a tentativa de evitar o confronto com o que implica extrair um saber do Outro – operação ligada, obrigatoriamente, à angústia. Nesse contexto, surge a solução de perguntar à máquina, precisamente para não ter de se confrontar com aquela pergunta vital: “que queres?”.
Sabemos bem, por exemplo, no âmbito clínico, como os pacientes relatam a experiência de precisar tomar a palavra em um curso: levantar a mão, interrogar-se sobre o que pensará o colega, o professor… É nesse ponto que emerge a questão, “que queres?”. Isso parece-me essencial para refletir o porquê do falasser, como mencionava Jacquie, tentar exterminar o ser humano – uma vez que, como disse Ana Viganó, o que está em jogo na questão da inteligência artificial é exatamente a relação entre o ser humano e a máquina. Isso está em todas as ficções: nas utopias, nas distopias, na literatura, no cinema. Há algo a se investigar na relação que se estabelece com a máquina – e, ainda, com o que chamamos de inteligência.
Nesse sentido, retomo o que dizia Gilson: há uma ideologia em jogo. Há uma concentração de poder, porque as IAs não são neutras. Estão, na verdade, alinhadas a uma certa ética. Hoje, poderíamos dizer que estão programadas segundo uma ética “politicamente correta”, apresentando respostas que se pretendem feministas, anticolonialistas, entre outras. No entanto, nada impede que seja programada segundo outras diretrizes – nacionalistas, autoritárias ou de qualquer outra ordem. Desse modo, a noção de que a máquina responde sem preconceitos revela-se inteiramente falsa, e é precisamente diante disso que devemos nos manter advertidos. Portanto, não se trata de rejeitar a máquina, mas de não se deixar enganar por essa suposta neutralidade; não se deixar hipnotizar por um pseudo-saber sem interrogá-lo. Há, ademais, algo da ordem do gozo em jogo: do que se busca na máquina, que tipo de satisfação nela se encontra. Essas questões, a meu ver, permanecem centrais e incontornáveis.
Nicolás Bousoño:
Já às margens dos trabalhos da Rede, eu notava que havia um desenvolvimento dessa investigação no âmbito da RUA. Estive, também, na conversação da Rede de Psicanálise Aplicada, e parece-me que estes são lugares interessantes para pensar a inserção política da psicanálise, bem como a possibilidade de transmissão do nosso discurso. Paralelamente, isso nos devolve ao interior da elaboração analítica um saldo de saber.
A respeito do que se dizia há pouco, eu refletia sobre como a universidade não está na origem da psicanálise: trata-se de um terreno que se foi conquistando. Pensava, também, se não haveríamos, igualmente, de situar um trabalho sobre as intervenções no mundo digital, em uma rede de pesquisa acerca de como falar; como incidir nas redes e intervir em tais espaços. Isso porque os sujeitos estarão, cada vez mais, em relação direta com esses dispositivos, que são – sigo Lacan neste ponto – sintomas de nossa época. Torna-se, portanto, essencial elaborar modos de incidência, de transmissão e também de aprendizagem nesse campo.
Ana Viganó:
Quero retomar a perspectiva da relação do ser humano com a máquina. Está claro que, em nossa relação com a inteligência artificial, dirigimo-nos às máquinas de uma maneira nova: há a fascinação ou o medo e preconceitos. Todavia, nós, psicanalistas, não nos encontramos em nenhum desses polos. Nossa tarefa consiste em ler, interpretar, captar e saber dar-nos o tempo de compreender. No entanto, há ainda uma outra dimensão decisiva em jogo na contemporaneidade: a concepção do próprio humano como máquina. Certas correntes – neurociências, comportamentalismos – tendem, já há décadas, a concebê-lo como tal.
Tem-se, então, dois movimentos. Por um lado, há máquinas que visam aproximar-se do humano – um objetivo presente desde os desenvolvimentos mais iniciais da inteligência artificial, nos anos 1960. O primeiro programa que foi apresentado ao mundo era uma espécie de terapeuta que respondia por meio da repetição das palavras-chave da fala de seu interlocutor. O segundo modelo assumia a posição de “paciente”. Em ambos os casos, o que estava em jogo era passar no Teste de Turing, isto é: mostrar-se incapaz de ser definitivamente identificado como máquina ou humano. É esse o ponto crucial: que seja indistinguível. Para tanto, é necessário, inclusive, que a máquina “minta”: que simule, que aprenda o humor humano.
Retornemos, então, à pergunta do que é o humano. Afinal, existem muitos seres humanos que apresentam dificuldades exatamente com as características que evocamos – na relação com a linguagem, com o outro, com o humor, com a ambiguidade. Temos, assim, uma convergência: máquinas que se empenham em parecer seres humanos e seres humanos que, cada vez mais, comportam-se como máquinas. Essa confluência complexa é, para nós, muito importante, ao passo que produz efeitos nas universidades, nos hospitais, nos consultórios, na vida cotidiana… Em razão disso é que espaços como esta conversação mostram-se tão fundamentais.
Encerramento:
Agradecemos, por fim, aos coordenadores, a Carolina Koretzky, aos membros dos grupos de trabalho e aos demais presentes. Convidamos todos a continuarem participando e a prosseguirem no trabalho desenvolvido nesses espaços. Muito obrigado e boa tarde a todos.
REFERÊNCIAS