O mal-estar e os artifícios no saber hoje

Virgínia Carvalho

Psicanalista. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP). Professora da Universidade Federal do Espírito Santo. Integrante da coordenação da Rede Universitária Americana (RUA).

E-mail: virginiacarvalhopsicanalise@gmail.com

Seguindo a aposta de transmitir o novo e o heteros que se apresentam no campo vivo que pode ser a universidade, a partir da orientação lacaniana, Cythère? lança seu oitavo número. Como se constitui a relação com o saber na atualidade, levando em conta a proliferação massiva de artifícios e novas nomeações na cultura? Neste número, o fio editorial se desenhou em torno da seguinte temática: “o mal-estar e os artifícios no saber hoje”. Cythère? 8 se constituiu, portanto, como o registro entusiasmado de um intenso trabalho entre vários, realizado a partir da diversidade de línguas e culturas, por colegas que sustentam sua permanência em universidades, públicas e privadas, em diferentes lugares onde a Rede Universitária Americana (a RUA) se faz presente, levando a orientação lacaniana e os princípios da Escola Una.

Nesse sentido, essa revista da RUA vem se constituindo não apenas como uma revista universitária que recebe artigos e trabalhos científicos através de livre demanda, mas também como o endereço escolhido pela FAPOL (Federação Americana de Psicanálise de Orientação Lacaniana) para a difusão de textos concernentes às diversas atividades realizadas pelo Campo Freudiano nas universidades da América Latina.

Nosso leitor terá a oportunidade de conhecer a excelente conferência de Christiane Alberti, realizada na Universidade de Buenos Aires (UBA) enquanto ainda presidia a Associação Mundial de Psicanálise, intitulada “El malestar en la família”, em que ela faz um trabalho aprofundado sobre o modo pelo qual as famílias são nomeadas na contemporaneidade e os efeitos dessas transformações na subjetividade da época. Também na UBA esteve presente a presidente da FAPOL, Fernanda Otoni, cuja conferência surpreendente sobre “Fazer amor, ainda…” pode ser lida neste número. As duas conferências foram escolhidas como os Fundamentos de Cythère? 8.

Em Acontece na Universidade, podemos acompanhar a memorável conferência de Bartyra Ribeiro, realizada na Universidade Federal do Espírito Santo, no Brasil, a propósito da batalha do autismo, e a animada conversação realizada pelos colegas da NEL com Domenico Cosenza, atual presidente da Rede Universitária Europeia (RUE), sobre tecnofilia e tecnofobia, estabelecida por Jorge Santiago.

Em Rede, temos a chance de entrar na riquíssima conversação da RUA sobre “Os algoritmos do saber: psicanálise e universidade”, realizada no Enapol, em 2025, em Belo Horizonte. Temos acesso aos textos que ensejaram a conversação e que foram estabelecidos a partir do trabalho feito em rede, com diversos colegas psicanalistas da Associação Mundial de Psicanálise que são também professores em distintas universidades. O leitor terá a oportunidade de ler a “saborosa” intervenção de Carolina Koretsky, à época presidente de RUE e professora da Universidade de Paris 8, assim como as Notas da Conversação, estabelecidas por Vinícius Lima e Bárbara De Munno.

Aproveitando o clima da temática da revista, temos os textos de Andrea Berger, sobre “o saber entre o sublime, o desejo e a invenção”, e o de Beatriz Escalera, sobre “jogos on-line, fantasma e gozo”, que nos apresentam questões interessantes e de grande relevância na contemporaneidade.

Abrindo nosso radar, somos apresentados aos trabalhos de pesquisa realizados por Denizye Zacharias, sobre “A experiência da supervisão na universidade”; por Paula Legey e Marcus André Vieira, sobre “O patriarcado e o Nome do Pai”; por Pia Marchese, sobre “Os algoritmos e o amor”; e por Luis Francisco Camargos e Vinícius Tamanini, sobre “Acting out e passagem ao ato no crime”.

Agradecemos cordialmente a cada um dos autores, pareceristas, revisores, consultores e diretores e a cada integrante da equipe múltipla e entusiasmada que compôs a Cythère? nestes dois anos, sob minha coordenação juntamente com os queridos colegas Guido Coll e Jorge Santiago.

Nosso convite é o de que vocês possam saborear os textos dessa edição, deixando-se a-prender por eles no caliente dessa transmissão. Desejamos que este trabalho possa servir à construção cotidiana do saber fazer com a singularidade em um contexto que lhe é adverso e que faça chegar até vocês a beleza dessa Rede Universitária Americana, que mostra a potência e a fecundidade do Campo Freudiano na cultura. Como muito bem nos indica a imagem “Digital” – que acompanha este número e que foi gentilmente cedida pelo primoroso artista brasileiro Conrado Almada, a quem calorosamente agradecemos –, diante de tantos artifícios, é importante inventarmos algumas gambiarras.