A psicanálise pode contribuir para o tratamento de autistas
Bartyra Ribeiro de Castro
Psicanalista. Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP). Coordenadora do Programa de Investigação Psicanalítica do Autismo – PIPA (e rabiola) – Vitória/ES.
E-mail: bartyrardecastro@gmail.com
RESUMEN
Algunos analistas vinculados al Psicoanálisis de Orientación Lacaniana de la AMP han trabajado con la hipótesis del autismo como una estructura psíquica. Una cuarta estructura. Para nosotros, el autismo no es una enfermedad ni una discapacidad, sino una forma de estar en el mundo, así como las demás estructuras clínicas: psicosis, perversión y neurosis. El Psicoanálisis rechaza la idea de normalidad y considera al hombre normal como una ficción estadística. Si no se trata de una enfermedad, no debemos buscar una cura, sino un tratamiento, o varios. Tratar no es lo mismo que curar. Curar es intentar eliminar una enfermedad. Tratar es ofrecer mejores condiciones de vida, incluso subjetivas. Y el psicoanálisis puede contribuir al tratamiento de los autistas en cualquier punto del espectro.
Palabras clave: psicoanálisis; autismo; cuarta estructura psíquica; clínica con autistas.
RESUMO
Alguns analistas ligados à psicanálise de Orientação Lacaniana da AMP têm trabalhado com a hipótese do autismo como uma estrutura psíquica. Uma quarta estrutura. Para nós, o autismo não é uma doença ou uma deficiência, mas uma forma de estar no mundo, assim como as demais estruturas clínicas: psicose, perversão e neurose. A psicanálise recusa a ideia de normalidade e considera o homem normal uma ficção estatística. Se não é uma doença, não temos que buscar uma cura, mas um tratamento, ou vários. Tratar não é o mesmo que curar. Curar é buscar eliminar uma doença. Tratar é oferecer melhores condições de vida, inclusive subjetiva. E a psicanálise pode contribuir com o tratamento de autistas em qualquer ponto do espectro.
Palavras-chave: psicanálise; autismo; quarta estrutura psíquica; clínica com autistas.
ABSTRACT
Some analysts linked to the AMP’s Lacanian Orientation Psychoanalysis have worked with the hypothesis of autism as a psychic structure – a fourth structure. For us, autism is not a disease or a disability, but a way of being in the world, just like the other clinical structures: psychosis, perversion, and neurosis. Psychoanalysis rejects the idea of normality and considers the normal man to be a statistical fiction. If autism is not a disease, then we should not seek a cure, but rather a treatment – or several treatments. Treating is not the same as curing. To cure is to seek to eliminate a disease. To treat is to offer better living conditions, including subjective ones. And psychoanalysis can contribute to the treatment of autistic people at any point on the spectrum.
Keywords: psychoanalysis; autism; fourth psychic structure; clinic with autistic people.
Lacan, certa vez, na Conferência em Genebra, nos advertiu que os autistas podem não falar, mas nós certamente temos muito a lhes dizer e a escutar deles.
Quando pensamos em psicanálise e autismo, buscamos transmitir algumas premissas que consideramos importantes, tais como: que a psicanálise não é uma ciência baseada em evidências, mas um saber sobre a subjetividade humana; que a psicanálise pode contribuir para o tratamento de autistas, de uma forma própria; que pode compor o leque de possibilidades terapêuticas juntamente com as inúmeras outras; que considera fundamentais os aportes das muitas linhas de pesquisa sobre o tema, tais como a genética, a psiquiatria e a neurologia; e, por fim, que seu conceito de autismo é baseado em elementos tanto comuns a outros saberes, quanto em saberes próprios, que balizam a nossa intervenção clínica e as nossas premissas investigativas.
Falo, aqui, a partir da Orientação Lacaniana do Campo Freudiano/Associação Mundial de Psicanálise. Essa ressalva se justifica pois há, dentro mesmo da Psicanálise, diferentes aportes teórico-clínicos e posições ético-políticas.
Baseamos nossas posições frente ao autismo nos pressupostos de Sigmund Freud, de Jacques Lacan, de Rosine e Robert Lefort, de Jacques-Alain Miller, de Jean-Claude Maleval e de Éric Laurent, e também nas experiências clínicas com autistas, nos relatos dos pais e professores que lidam cotidianamente com eles, nos desenvolvimentos teórico-clínicos dos analistas do Campo Freudiano e nas autobiografias de autistas.
Há muito temos nos dedicado ao tema no Campo Freudiano, sobretudo desde os anos 1950, quando Rosine e Robert Lefort se debruçaram em pesquisas clínicas pormenorizadas com crianças hospitalizadas, no Parent de Rosan, na França, com diagnósticos de psicose e autismo.
Alguns analistas ligados à Psicanálise de Orientação Lacaniana da AMP têm trabalhado com a hipótese do autismo como uma estrutura psíquica. Uma quarta estrutura. Isto quer dizer explicitamente que, para nós, o autismo não é uma doença ou uma deficiência, mas uma forma de estar no mundo, assim como as demais estruturas clínicas: psicose, perversão e neurose. A psicanálise recusa a ideia de normalidade e considera o homem normal “uma ficção estatística” (Maleval, 2009). Se não é uma doença, não temos que buscar uma cura, mas um tratamento, ou vários. Tratar não é o mesmo que curar. Curar é buscar eliminar uma doença. Tratar é oferecer melhores condições de vida, mesmo subjetiva.
Consideramos, também, o autismo como um espectro no qual encontramos diversos graus que variam entre leve, moderado e grave, que vai dos pré-kannerianos aos Aspergers, passando pelos considerados savants e chegando aos “autistas de alto rendimento”. No entanto, para nós, o que importa é que existem tantos autismos quanto existem autistas.
Consideramos que os autistas têm dificuldades importantes em lidar com o mundo, seja no sentido amplo ou estrito, e que suas famílias estão completamente envolvidas nessas dificuldades, sobretudo em lidarem com esse filho que se apresenta tão distante de suas expectativas e ideais. Muitos autistas precisam de ajuda para saírem de seus mundos fechados e encontrarem soluções próprias para estabelecerem algum nível de relação com o exterior. O autismo é uma forma de proteção frente ao afeto do Outro, que acaba por causar, nos autistas, um apartar-se dos laços sociais, e por expressarem, estruturalmente, o mais intenso da angústia humana. Uma angústia irracional que toma o sujeito e modula todos os seus atos.
É importante ressaltar que muitos campos de saber buscam responder sobre a causa do autismo – genética, psiquiátrica, neurológica, alimentar, ambiental, psíquica –, entretanto, seja qual for a causa, há crianças, adolescentes e adultos autistas que necessitam que cuidemos deles. A psicanálise se apresenta à cena com uma proposta clara: levar em conta a subjetividade dos autistas e tomá-los em tratamento, um a um. Isso faz bastante diferença quanto aos resultados que podem apresentar.
A psicanálise propõe uma forma de compreender o funcionamento autístico, afetiva e cognitivamente. Compreender um pouco o funcionamento, em alguns casos, possibilita um apaziguamento e pode ajudá-los com alguma mudança quanto à sua posição subjetiva. Somente com alguma abertura para o mundo exterior é que acreditamos ser possível um avanço cognitivo real, pois os métodos de aprendizagem se detêm em limites traçados pelo ideal social e pelas expectativas a serem correspondidas, ou não, por quem está submetido a eles.
A proposta da psicanálise implica exatamente a inversão desta lógica: que o que se tem a aproveitar do ensinado parta das possibilidades de cada sujeito. É aí que temos lugar – escutando-os.
A psicanálise leva em conta a relação do autista com seus objetos, com seus duplos e com seus interesses específicos, com sua linguagem e com seu “pensar em imagens”, além de extrair, das inúmeras formas de apresentação clínica, o que há de constante na estrutura autística.
A forma com que o autista se coloca na linguagem é absolutamente singular a essa estrutura. Para a Psicanálise, há apenas uma forma de entrarmos na linguagem: pela via do significante (quer dizer, sofrendo os efeitos, no corpo, da entrada da linguagem, que nos coloca sujeitos a uma báscula entre som e sentido, constituindo um tecido linguístico cheio de vazios e ambiguidades, como uma rede, que nos permite lidar com humores, ironias, e a dispor das figuras de linguagem – metáforas, metonímias, etc). Temos estudado a relação com a linguagem, no autismo, e podido pensar – como nos orientou Lacan nas duas únicas vezes em que falou de autismo – que há um congelamento que faz com que o autista responda ao efeito da entrada da linguagem, o que o torna um ser falante como qualquer um de nós, como ele nomeia em seu último ensino; no entanto, tome seu uso pela via do signo – uma forma sonora estreitamente ligada a uma imagem referente, de origem visual ou táctil, gustativa ou olfativa. Essa forma sonora pode ser, talvez, uma palavra, uma frase, um balbucio de linguagem, um fonema, um número, etc. (Maleval, 2018). Lembremos que o signo representa algo para alguém, enquanto o significante representa um sujeito para outro significante. Essa distinção não é meramente teórica ou um misto de linguística com estruturalismo lacaniano, mas uma referência teórica essencial para quem investiga a filigrana do acesso à linguagem no autismo, como temos feito há algum tempo.
O balbucio e o que se diz ao bebê têm relação intrínseca. A língua materna se transmite desde o berço, junto aos primeiros elementos do laço afetivo – alegrias, demandas, dores… Por outro lado, os bebês balbuciam suas primitivas interpretações, repetições dos sons ouvidos, neste vai-e-vem carregado de história, como uma transmissão de valores transgeracionais. Estudiosos linguistas enfatizam que o balbucio carrega os traços da língua materna: “O balbucio de um bebê japonês é diferente do balbucio de um bebê inglês e de um bebê francês” (Maleval, 2009). Isso faz laço social. Assim, cada um de nós se localiza em sua história familiar. A aquisição da linguagem comporta uma diferença quando decorrente do atravessamento pelos afetos, de quando feita intelectualmente, apartada da carga afetiva. A aquisição da linguagem pelo bebê autista se dá pelas experiências sensitivas (olfativas, gustativas, visuais e auditivas) e pelo intelecto, nos ensina Jean-Claude Maleval. Pelo aprendizado, não pela vivência. Ele não se utiliza da voz e do olhar para a troca social e para se comunicar, e não conecta a experiência emocional aos sons.
O uso da linguagem pela via do signo tende a generalizar o aprendizado, a cristalizá-lo em imagens, e dificulta bastante a formação dos conceitos simbólicos, pois não bascula no hiato do não-sentido, trazido pelo mal-entendido do jogo dos significantes. Para os autistas, o mundo ideal seria imutável, regrado rigidamente, e as palavras, cada uma delas, teriam um só sentido.
Muitos desenvolvem uma língua própria ou escolhem usar línguas estrangeiras na comunicação como forma de se defenderem do mal-entendido e dos afetos contidos na língua mãe, usam linguagem factual, inexpressiva quanto às emoções e/ou falam sem cessar sobre o que não visam comunicar, apenas proteger sua própria enunciação. Muitos ainda escolhem a escrita, que lhes permite se comunicar sem usar a palavra falada (a voz). É comum terem muita dificuldade em abstrair ou subjetivar sentimentos, acontecimentos e expressões da língua falada. Apartam-se, então, da vivência dos afetos e recorrem às imagens para construir um pensamento.
Lacan afirma que não há sujeito fora da linguagem, e esse enunciado tem nos colocado a trabalhar intensamente. O conceito lacaniano de sujeito – representado entre dois significantes, numa operação conjunta de alienação e de separação, deixando um resto – não pode ser aplicado ao autismo, visto que, no que entendemos e sustentamos como quarta estrutura psíquica, somente o conceito de falasser (ser falante) pode ser aplicado ao autista. Outro elemento desse enunciado – fora da linguagem – também é questionado quando consideramos que, por linguagem, se entende “sujeito às leis da metáfora e da metonímia”. No entanto, o autista faz uso da língua. Mesmo que alguns tapem os ouvidos tentando barrar a invasão pela linguagem, outros a ecoam num gozo reverberante, e muitos são capazes de, após anos de mutismo, proferirem frases absolutamente bem elaboradas e coerentes, perfeitamente cabíveis no contexto para, logo depois, mergulharem novamente em seu silêncio. Ainda outros, os autistas considerados de “alto desempenho”, conseguem chegar a um estado que hoje temos chamado de “descongelamento” da linguagem e acessarem o que Jean-Claude Maleval tem considerado como uma “enunciação expressiva”, a partir de sua mais recente publicação, La difference autistique. Essa “enunciação expressiva” se daria em função do que ele considera como algo de um “descongelamento” do significante presente no que Lacan, em seu último ensino, chama de alíngua (lalangue – fazendo um trocadilho entre língua e laleo, lalação). Isso aconteceria, ainda estamos investigando, sobretudo com os autistas considerados de “alto rendimento”, embora J.-C. Maleval tenha trazido em sua última tese sobre esse tema que é possível termos alguma “enunciação expressiva” já em autistas kannerianos.
Para nós, autismo não é psicose.
Alguns parâmetros nos permitem distinguir autismo e psicose na pesquisa quanto à quarta estrutura psíquica. Se, na psicose, comparece o delírio enquanto base da construção do laço com o mundo, no autismo temos a imutabilidade e a borda autística como defesas frente a este mundo. No autismo, não há delírio. Questiona-se se há alucinação, uma vez que, quando aparecem alguns murmúrios que nos fazem pensar que estejam ouvindo vozes, podemos inferir que estejam ouvindo os sons que tocam seu corpo, sem emissor externo ou receptor de suas vocalizações. Na psicose, temos alucinações – verbais e motoras –, os fenômenos elementares, o automatismo mental e a certeza delirante.
No autismo, temos o início muito precoce, ao passo que, na psicose, temos desencadeamento; no autismo, temos a linguagem sob a forma de uma iteração de significantes que permanecem sem sentido e, na psicose, há delírio, hipocondria, certeza delirante e um rompimento na cadeia de sentido que o sujeito constrói na relação com a linguagem. O autismo funciona continuamente da mesma forma ao longo da vida, ao passo que, na psicose, temos tanto o desencadeamento quanto a estabilização.
No autismo, o corpo é constituído na borda, enquanto, na psicose, o corpo é fragmentado. São considerados bordas autísticas: objetos, duplos e interesses específicos – invenções singulares para poderem ir ao mundo, depositar o afeto e localizar o sintoma.
Também encontramos diferenças importantes entre autismo e psicose na escrita de ambos. Na psicose, o relato é em forma de dossiê, é reivindicatório e contém os dados e a lógica delirantes. No autismo, segundo os próprios autistas que escrevem, os escritos são autobiográficos e visam ao testemunho e à narrativa sobre seu funcionamento autístico, sua vivência enquanto autista, a fim de ajudar os outros autistas na compreensão sobre o que lhes acontece e aos que não são autistas, também a compreendê-los, aceitá-los e acolhê-los em suas diferenças.
Alguns sinais precoces do autismo são praticamente consenso entre todos nós e são constantes, tanto nos autistas kannerianos quanto nos Aspergers: a ausência do olhar e a falta de atenção conjunta (Maleval, 2009) – uma criança pode indicar com o dedo um objeto para o qual não está olhando – e a resistência radical em ceder a voz e os excrementos, que, juntamente com os alimentos, não são colocados na relação demanda/desejo na interação com quem cuida deles.
A psicanálise toma esses elementos como objetos fundamentais do estabelecimento da relação entre criança e mundo. Sem esses objetos, que chamamos pulsionais – olhar, voz, excrementos, alimentos –, não podemos pensar numa estruturação da subjetividade. Esses objetos, reconhecidos como objetos da pulsão, são os primeiros envolvidos na constituição do laço social. Isso é fácil de entender, uma vez que a relação bebê-mundo começa com mamada, olhares, vozes, fezes…
A voz tem um lugar especial no autismo. Grande número de autistas permanece mudo por toda uma vida – o que não quer dizer absolutamente que seu mundo interior não seja rico e cheio de pensamentos. Desordenado, mas riquíssimo. Naoki Higashida e Birger Sellin são exemplos de autistas que escreveram suas autobiografias sem serem grandes falantes; pelo contrário, ao longo da vida pronunciaram apenas poucas palavras. Sellin esteve praticamente mudo todo o tempo.
Para alguns autistas, ceder a voz é como uma mutilação. Sofrem como se seu cérebro estivesse sendo esvaziado, outros não cedem seus excrementos, como se seus pulmões fossem explodir, forçando o recurso a manobras mecânicas de lavagens intestinais (Maleval, 2009).
São muito comuns as confusões diagnósticas para as quais precisamos estar atentos: entre autismo e psicose – o DSM, muito largo, acaba por incluir algumas psicoses infantis dentre as descrições do espectro autista, e tratar um autista como psicótico o limita em suas capacidades e pode colocá-lo numa reclusão ainda maior. Em relação à psicose, há distinções clínicas claras, tais como: não há delírio ou alucinações verbais no autismo, e a fala é completamente disjunta do corpo, para dizer em poucas palavras. Mas as diferenças são ainda outras. Tratar um psicótico como autista também não viabiliza todo o desenvolvimento de suas potencialidades subjetivas. Há, também, muito conflito diagnóstico entre inibição e autismo. Muitas crianças simplesmente inibidas chegam a ser diagnosticadas como autistas leves somente pelos traços comportamentais de reclusão, de atraso na linguagem ou mesmo de agitação dos corpos – o que hoje se costumou chamar, na lógica da patologização e da psiquiatrização da infância, de hiperatividade.
No entanto, lembremo-nos de que nenhum diagnóstico é sem consequências. Nenhum diagnóstico equivocado é sem consequências graves.
Sabemos todos que não há medicação para o autismo, somente para alguns sintomas, como uma tentativa de protegê-los e de preservá-los quanto à integridade física. Muitas vezes, durante crises violentas, muitos autistas se colocam em risco de se ferirem, de se machucarem gravemente. A clínica do caso a caso se impõe necessariamente em contraposição à busca da universalidade. Por exemplo, a prescrição de Ritalina (metilfenidato) – que, frente ao excesso de agitação, em algumas crianças, tem um efeito apaziguador pela hiperexcitação própria da droga –, quando ministrada a alguns autistas, pode desregulá-los, colocando por terra seus mecanismos de proteção contra a invasão do mundo a seu corpo, causando mais angústia.
Não existe qualquer medicamento capaz de alterar o subjetivo. Entretanto, os interesses da indústria farmacêutica em medicalizar quase que indiscriminadamente o humano, não devem ser ignorados.
Os autistas desenvolvem, isolados em seus mundos, os conceitos a respeito dos sentimentos e das sensações. Se não falam, não trocam, e o mundo exterior fica a uma distância tal que se torna, muitas vezes, inatingível e incompreensível. Donna Williams nos ensina muito a esse respeito. Ela apartava sentimentos e pensamentos. Em seu segundo livro, Somebody somewhere, deixa evidente a conquista do sentimento de pertencimento como efeito do real da publicação de seu primeiro livro, Nobody nowhere. Ela viveu uma perda importante ao ceder os segredos de seu mundo e de seu “sistema” de funcionamento – como ela descreve, para diminuir o hiato entre sentimentos, sentido e pensamento. Com todos os avanços subjetivos conquistados por ela, sempre que se encontrava diante dos impasses entre sentidos e afetos, recolhia-se ao seu isolamento autístico.
Esse mecanismo é evidenciado em todos os autistas e testemunhado pelos escritos autobiográficos de autistas de “alto rendimento”. Os textos de Temple Grandin, Donna Williams, Birger Sellin, Naoki Higashida, Daniel Tammet e outros tantos endossam as afirmações de Asperger sobre a riqueza do mundo interior dos autistas, sobre a constância de traços que podem ser reconhecidos desde a mais tenra idade e que permanecem por toda a vida, e sobre um “essencial que se mantém invariável” (Asperger, 1998). Eles, por mais adaptados que estejam, por mais que possam suportar um laço social, continuam a se considerar autistas. Todos reconhecem que algo de seu modo de funcionamento perdura na idade adulta, mesmo se avançam dentro do espectro.
As autobiografias dos autistas são testemunhos da grande dificuldade que têm em tomar a palavra de forma autêntica e em lidar com a contingência, com o inesperado, com o imprevisto.
O psicanalista, em sua tarefa, se coloca à escuta para recolher os sinais que os autistas emitem em suas tentativas de se comunicarem e, assim, buscarem aliviar um tanto da angústia que os invade.
A questão do autismo não é que lhe falte, mas, ao contrário, que lhe exceda. Daí o cuidado também com o excesso de oferta de todas as formas: de atenção, de palavras e, inclusive, de tratamentos… O autismo é uma recusa extrema ao que excede. E a proposta da psicanálise é a de tratar esse excesso. Um tratamento em que o psicanalista se coloca como um guia que vai atrás, que segue os caminhos sinalizados pelo autista, pelo que ele norteia, pois o saber sobre ele está ali. Somente dessa forma, inventando suas saídas próprias, é que poderá solucionar alguns dos muitos de seus impasses frente ao viver.
Sabe-se que a psicanálise tem pagado, historicamente, um preço bastante caro pelas afirmações de psicanalistas que, em meados do século passado, sustentaram premissas segundo as quais a causa do autismo seria a falta dos pais, especialmente das mães. Essas conclusões equivocadas indicavam uma terapêutica de internação de crianças em instituições asilares, que tinham como função principal o afastamento das crianças de seu meio familiar. Consequentemente, causaram uma resistência radical à psicanálise por parte de muitos pais de crianças autistas. Felizmente, não é assim que a psicanálise vem se posicionando há algum tempo.
A especificidade da abordagem psicanalítica consiste em considerar que o sujeito possua um saber essencial sobre o seu modo de funcionamento e, por isso, é preciso escutar seriamente o que os próprios autistas dizem. A orientação da psicanálise é a de que “saibamos ignorar o que sabemos” (Ansermet, 2012) e compreendamos que há tudo a descobrir quanto àquele sujeito diante de nós. Para a psicanálise, o autista é alguém sempre a surpreender com um saber próprio, não somente um indivíduo a ser treinado, sem qualquer subjetividade.
Não concordamos com protocolos que visam a estabelecer o diagnóstico precoce baseado em evidências que desconsideram a subjetividade, ou em protocolos que determinam uma linha geral e única para diferentes sujeitos, sem respeitar a singularidade.
Autistas crescem. Seus cuidadores e responsáveis, pais, familiares, morrem. Eles precisam ter condições de habitar o social e de manter minimamente alguns laços essenciais à sua sobrevivência, além de alguns poderem e deverem sustentar seus meios de vida.
REFERÊNCIAS