O que é a Fundação do Campo Freudiano? * **

O que é a Fundação do Campo Freudiano?  É um significante, e nada mais. É um significante depositado por Jacques Lacan em fevereiro de 1919, e do qual mantive a custódia. Mas não para guardá-lo trancado com chave. Ao contrário.

É um significante que está à disposição de todos aqueles, conhecidos ou desconhecidos, que, através do mundo, se dedicam ao ensino de Lacan, e tentam prosseguir com ele, em seus países, em suas línguas, em suas culturas.

É muito pouco dizer que a organização da Fundação tem a maior flexibilidade. Na verdade, a Fundação está totalmente disponível. Ela está aberta às iniciativas e às inovações, até as solicita, mesmo que sejam aqueles que as proponham, aqueles que também as realizem. Da Fundação, não se recebe mais do que aquilo o que você contribui. É o que poderíamos chamar de sua “militância”, se a palavra não aterrorizasse o Campo Freudiano: então, falemos de sua seriedade.

A Fundação se desenvolve sem plano pré-concebido, senão aquele de favorecer em todos os lugares, e sem sectarismo, o trabalho dos alunos e leitores de Lacan e, ali onde seja possível, sua solidariedade. Aqui, a experiência de uma prática de formação permanente faz nascer o Colégio Freudiano. Lá, uma convocação produz a série de Encontros Internacionais. Tal conferência desemboca na instituição de um seminário; outra, em uma publicação que, em breve, será traduzida. Sem plano então, mas não sem princípios, a Fundação se desenvolve em rede, e pudemos dizer que não tem dentro, que a sua vocação se desenvolve inteiramente fora de si mesma.

Vista por outro ângulo, é amigável: nos conhecemos, aprendemos a nos conhecer, confiamos uns nos outros. Temos o sentimento de que o ensino de Lacan, ainda é, sempre um combate, que não está vencido, que não há louros em que descansar e que a aposta é a própria orientação da psicanálise para os tempos que virão.

Certamente, a Fundação não pode tudo. Ela sustenta, estimula, faz eco, tece incansavelmente os laços múltiplos, põe em contato, às vezes reluz. Mas não substitui as associações psicanalíticas que têm a tarefa, em seu nível, de administrar a experiência, e que o fazem de forma não estandardizada, como implica sua referência a Lacan.

Teremos entendido: esta surpreendente Fundação é o que vem no lugar, no Campo Freudiano, daquela Internacional que Jacques Lacan, ao contrário de Freud, não quis criar.

Este volume, que reúne documentos recentes, é feito para “dar ideias” aos amigos, agora tão numerosos, da Fundação. O panorama que ele apresenta, aposto que, no futuro, será mais estendido e mais complexo.

Judith Miller

Tradução: Rogério Barros


[*] Este texto foi publicado com a amável autorização de Eve Miller-Ros.

[**] Este texto foi inicialmente publicado como prefácio da revista Analytica, n. 44, Paris, Navarin éditeur, 1986.

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