Encontros

Caros colegas do Conselho Fapol, do Bureau anterior, do Bureau atual e Presidenta da Associação Mundial de Psicanálise, Angelina Harari:

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que é uma honra para mim assumir o cargo de Presidenta da FAPOL para o qual fui convocada, e que levarei adiante com o meu maior compromisso e responsabilidade.

O evento de permutação para nós é sempre motivo de comemoração, pois introduz uma escansão na automação que promove a renovação, para continuar a jogar a partida com novas peças, inovando e respeitando o nosso acervo original. É também a oportunidade de agradecer aos colegas que sustentaram a causa desde as instancias administrativas e de agradecer a dedicação e os frutos do trabalho que nós herdamos agora.

Os tempos inéditos que se passam parecem inaugurar uma nova era, como se um pedaço do futuro tivesse impactado nossa civilização. Por um período de tempo, ficamos detidos, esperando alguma clareza; então, diante da incerteza, decidimos não ficar estagnados pelo confinamento, e prosseguir, para manter viva e ativa nossa estrutura e nosso saber fazer. É por isso que estreamos hoje esta mecânica inédita que nos permite reunirmos pelo modo virtual e formalizarmos este ato inicialmente previsto para abril passado.

À luz da experiência atual, continuaremos a utilizar os recursos tecnológicos que nos permitem cruzar fronteiras, proporcionando-nos uma fluidez preciosa para o estreitamento dos nossos laços que, pela sua cartografia, se prolongam pelo vasto continente que é América.

Em nosso continente, a FAPOL abrange um território muito vasto, inclui 38 cidades de 11 países diferentes, onde as línguas da América são faladas em suas variações de tons e sotaques. Assim, a nossa estrutura reúne uma grande diversidade cultural associada a uma causa comum, cujo sentido de comunidade é assegurado através dos seus encontros – o grande desafio será então promover que isso aconteça, mesmo em tempos de pandemia.

Os meios tecnológicos permitem-nos encontrar-nos com mais assiduidade, aproximarmo-nos e conhecer os nossos colegas vizinhos, inteirar-nos sobre os avanços em seus trabalhos, interessar-nos pelos programas inovadores realizados nas localidades, intercambiar experiências, querer saber mais. Venho de uma escola cujo agalma é o valor do encontro. Seu dado singular: tem sua ponta sul em Santiago do Chile, seu extremo norte na Cidade do México e, no centro seu cálido e apaixonado espírito caribenho. Sobre o fundo da complexidade desta extensão e da diversidade de nuances locais, nessa tensão vital entre o Um e o múltiplo, precipita-se a contingência do encontro que reafirma o desejo.

O nó que sustenta a psicanálise não é nenhum mistério, está no encontro de nossas escolas. Que melhor fortaleza para falar com o Outro social, nos representar perante os poderes públicos e políticos, e ampliar o nosso horizonte de incidência e ação!?

Estamos advertidos ​​de que esses dias futuros de hoje, tal como o antecipou Lacan visionariamente, anunciam um retorno iminente e feroz do discurso do Mestre. Nesse porvir os analistas e, em particular, desde nossa federação, teremos que fazer a psicanálise existir ” contra o discurso da ciência que invade as diferentes atividades humanas”[1], encarregando-se desse resíduo não cientificável. Cito Jacques-Alain Miller: “Antes de tudo, é acolher o real, o novo real, o real que é produto do discurso da ciência e que já não tem nada a ver com a natureza”[2].

Essa gestão recebe uma FAPOL solidamente constituída, com seu Regimento Interno, e com um quadro fecundo que responde às políticas que a inspiram: os observatórios e as redes, as revistas Lacan XXI e Cythère para o campo universitário, seus meios de difusão e comunicação, e seu grande acontecimento bianual: o Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana. Cabe-nos então fazê-lo avançar, acompanhando as iniciativas, alojando o desejo de trabalhar dos colegas e atendendo ao afetio societatis que respira nas nossas estruturas.

Conto na gestão com dois magníficos companheiros de navegação: Ricardo Seldes como Vice-presidente e Iordan Gurgel, como secretário, com quem, neste tempo preliminar à permutação, construímos um vínculo amigável de confiança e camaradagem. Além disso, a partir do reconhecimento tão especial que Jacques-Alain Miller outorgou à nossa querida Flory Kruger, a FAPOL contará para sua administração com sua consultoria entanto Presidenta Honorária e, fundamentalmente, com o Conselho, constituído por dois representantes de cada uma das Escolas da América, juntamente com a Presidente da AMP, Angelina Harari, que nos orienta de perto no que diz respeito às coordenadas éticas e políticas da Associação Mundial de Psicanálise.

Para finalizar, enquanto servidores do discurso analítico, convido-os a compartilhar desta travessia, que para mim tem nuances épicas – como não poderia ser de outra maneira –, para contribuir todos juntos ao movimento da psicanálise aplicada de orientação lacaniana na América.

Concluo, então, com aquela frase inspiradora de Lacan:

“Não sou eu quem vai ganhar, mas o discurso que sirvo”[3].


Traducción: Iordan Gurgel

NOTAS

  1. Miller, J.-A., “Psychoanalysis is an epidemic”, Um esforço de poesia, Editorial Paidós.
  2. Ibid
  3. Lacan, Jacques, “El atolondradicho”, em Outros escritos, Paidós, Argentina, 2012, p. 499.

Despedida

Devo confessar que estou um pouco comovida, é verdade que me sentir assim não é novidade, costumo me emocionar com pequenos detalhes do cotidiano, sempre tenho lágrimas à flor da pele, suponho que o confinamento sem fim a que esse vírus nos sujeita também faz o seu trabalho.

Mas nesta oportunidade é diferente.

Não se trata de um detalhe do cotidiano, é sobre deixar um lugar que ocupei por 4 anos, e mais 5 meses adicionados, por causa dessa pandemia.

Também não se trata do tempo decorrido, mas sim do que percorremos durante esse tempo. Uma longa estrada, no início, de terra, não exatamente asfaltada. Talvez hoje possamos dizer que em alguns trechos já está assim, o que nos permite avançar mais rápido. Por outro lado, no chão de terra, ainda existem poços, algumas pedras, obstáculos que sem dúvida vão ser corrigidos à medida que vamos avançando, porque como canta Joan Manuel Serrat, “se faz caminho ao andar”.

A Fapol cresceu, e esse crescimento se deve ao entusiasmo que os colegas encontram na tarefa que realizam. Uma transferência de trabalho funciona como motor em cada um dos espaços, tanto nos Observatórios como nas Redes.

Temos trabalhado muito para que cada um encontre a sua particularidade, sobretudo com os Observatórios, que em muitas oportunidades se sobrepunham ao espaço das Redes do Campo Freudiano. Continua sendo uma tarefa central conseguir um encontro comum, um trabalho bem orientado, de complementação e não de sobreposição.

Durante nossa gestão, novos espaços foram inaugurados. Em 2016, como um balanço do trabalho que os colegas da AMP vinham fazendo em relação ao Autismo com vistas ao Congresso, Miquel Bassols, então Presidente da AMP, sugere que o trabalho realizado pelos colegas da América Latina, passe a fazer parte da Fapol. Foi assim que surgiu o Observatório sobre Autismo.

Em 2017, foi criado o Observatório de Gênero, Biopolítica e Transexualidade, um espaço onde questões atuais em relação à identidade de gênero e as legislações vigentes, são questionadas a partir da mirada da psicanálise.

A única Rede existente desde o início da Fapol era a Rede Universitária Americana, RUA. Sendo uma Rede para os membros das três Escolas da América e da AMP, deixou de fora todos os colegas que, estando em transferência com a nossa orientação, não puderam ser incluídos. Esse foi o motivo da criação de uma segunda Rede vinculada à Universidade, a denominamos IUFI, Iniciativa Universitária de Formação e Pesquisa, tendo em vista que a Universidade é um lugar estratégico para despertar uma transferência com a Psicanálise que permita a aproximação dos alunos às nossas Escolas para sua formação, outra das formas de promover o crescimento da Psicanálise na América Latina. É importante destacar que dentro de RUA houve dois avanços muito importantes.

Por um lado, e graças ao trabalho de Olga Molina, foi organizado um levantamento das pesquisas e publicações existentes no meio acadêmico universitário, a fim de estabelecer ligações cruzadas entre os membros das três Escolas que trabalham em temas comuns.

O outro avanço que para o meu gosto é a joia da RUA, foi a criação da Cythère?, uma Revista de Psicanálise com publicações de membros da AMP, credenciada pelo sistema de arbitragem e indexada nos portais de Revistas Científicas. Sua Editora, Mariana Gomez, com sua excelente disposição e seu conhecimento sobre o tema, cercou-se de uma equipe de excelência para sua produção. Tem uma edição anual e esta semana acaba de sair o terceiro número.

A outra novidade: foi a criação da Rede de Psicanálise Aplicada, RPA, um espaço tão necessário nesta época onde a exigência do Outro social está colocada na eficácia e, sobretudo, na rapidez de qualquer iniciativa. Contamos com esta Rede que responde às necessidades atuais e que avança respondendo a essas demandas urgentes, com resultados rápidos. A novidade da RPA foi a inclusão de um olhar sobre a psicanálise no campo empresarial.

E, por fim, a quarta Rede criada em 2018 foi a RCP, Rede de Cinema e Psicanálise. Tudo partiu de uma proposta de um colega da EOL, que dirigia um espaço de cinema na cidade, com excelentes resultados. Ainda que o cinema seja uma das minhas preferências, sabemos que a psicanálise se nutre da cultura e que o cinema é um de seus eixos, portanto, seria razoável incluí-lo como mais uma das Redes Fapol.

Mas o mais importante que quero destacar é que cada um desses espaços foram criados a pedido dos responsáveis que estão ao seu cargo, não foi inventado pelos membros do Bureau, nem pelos Conselheiros da Fapol, mas lhe foi cedido um lugar com base nas demandas recebidas.

Houve outros pedidos que infelizmente não pudemos satisfazer; alguns conseguimos que fossem incluídos em espaços já existentes, a exemplo do que ocorreu com o Observatório “Infancias”. Esse é o nome que o Observatório tem desde 2018. Mas no seu início era chamado de “A Infância medicalizada”. A mudança de nome foi para incluir outras questões da criança em relação com a época, como a educação, a escola, os fenômenos de bullying, as questões legais, além das de natureza médica.

Embora a Fapol abrigue as 3 Escolas da América Latina, o Conselho da AMP aceitou uma exceção, incluir o Grupo Lacaniano de Montevidéu, o GLM, dentro de sua estrutura e os reconhecendo como pertencentes à Fapol e consequentemente, à AMP . É um grupo que tem crescido muito nos últimos anos no Uruguai, acompanhados de perto por Ricardo Seldes. Seus Diretores têm realizado um excelente trabalho de transmissão, gerando transferências que promovem sua extensão. Sua perspectiva é promissora.

No que diz respeito à organização e administração da Fapol, foi necessária a constituição de algumas comissões. Foi nomeada para a Tesouraria, Adriana Dirzieh quem, junto com o nosso querido Norberto, Secretário da EOL, administravam as contas da Fapol, tarefa nada simples que ainda hoje procuramos entregar nas melhores condições, uma vez que os inconvenientes para transferir dinheiro entre países latino-americanos não é uma tarefa fácil, mas já demos um passo importante nas últimas semanas. Esperamos poder concretizá-lo em alguns dias. A partir de agora tudo depende do movimento bancário.

A economia da Fapol depende dos Encontros Enapol. Das inscrições recebidas, há um percentual que fica para a Fapol, e outro percentual é distribuído entre as três Escolas. Portanto, é muito importante ter muito cuidado no que acontece com a organização do Enapol, e na ordem que temos que seguir com as despesas e as inscrições. É por todo este trabalho realizado que quero agradecer especialmente a Adriana e Norberto pelo acompanhamento, pela eficiência e pela serenidade com que sempre me acompanharam.

Outro grande agradecimento vai para a equipe de Imprensa e Divulgação, Nora Cappelletti, que se encarregou de reformular e redesenhar o site, Silvia de Luca, que junto com Nora atuaram como moderadores da lista, “Aqui Fapol”, Gloria Casado e María Eugenia Cora ocupadas com Facebook e Instagram, respectivamente – trabalhadoras determinadas, a quem devo muito pela ajuda e fidelidade que recebi, obrigada meninas!

Em simultâneo com a lista Aqui Fapol, foi criado o boletim mensal “Fapol Today” que no final do ano passado foi suspenso porque reiterava informação.

A Fapol se encarrega, a cada 2 anos, nos anos ímpares, da organização do Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana, ENAPOL. Este evento tem um grande convocatória e está orientado para fora das Escolas, claro, sem as deixar de lado, já que os seus membros são, em cada oportunidade, os anfitriões destes Encontros. O Enapol é realizado cada vez em uma das três Escolas de América. Em 2021 a Escola escolhida é a NEL. Por enquanto está pensado como um Enapol virtual, a menos que as condições sanitárias melhorem e que seja possível pensar em algo presencial, vamos ver …

A convocatória para estes Encontros é dirigida aos locais onde a Fapol desenvolve suas atividades, escolas, hospitais, universidades, centros de saúde, etc. encontros heterogêneos mas atraentes já que se escolhem com temas de interesse do público em geral.

E agora, para terminar, quero agradecer aos meus colegas do Bureau. A Cristina Gonzalez, que esteve por pouco tempo porque a sua mudança para Miami a obrigou a renunciar, sendo substituída por Raquel Cors Ulloa, que com a sua capacidade e talento conseguiu rapidamente se incorporar ao trabalho da Fapol. A Romulo Ferreira da Silva, em particular, que foi o responsável pela nossa revista virtual Lacan XXI, Revista que com certeza todos conhecem e que junto com sua equipe puderam obter um produto de excelência. Temos trabalhado muito de perto com Raquel e com Rômulo, nem sempre no mesmo ritmo (era a reclamação do Rômulo), mas sem dúvida com muito respeito e dedicação. Obrigado a ambos por este percurso compartilhado.

E, por fim, obrigado ao Conselho da Fapol, que com sua orientação política, esteve sempre presente, dando suas sugestões, mas acima de tudo, apoiando nossa gestão.

Tenho centenas de agradecimentos restantes, é impossível nomear todos eles, Coordenadores e Chefes de Observatórios e Redes, antes e depois da permutação que fizemos no ano passado, obrigada aos Membros das três Escolas da América, EBP, NEL, EOL, obrigada a todos aqueles que de uma forma ou de outra trabalharam e continuarão trabalhando, acompanhando o crescimento e o desenvolvimento da Fapol.

Neste ato, apresentamos a condução da Fapol a Viviana Berger, Ricardo Seldes e Iordan Gurgel, a quem desejo um trabalho frutífero sabendo, porque os conheço bem, que continuarão a aumentar, com a sua criatividade e eficiência o trabalho que vínhamos realizando.

Muito boa sorte queridos amigos!!!

Traducción: Iordan Gurgel

21 de junho de 1964

Fundo – tão sozinho quanto sempre estive em minha relação com a causa psicanalítica – a Escola Francesa de Psicanálise, da qual garantirei, nos quatro próximos anos pelos quais nada no presente me proíbe de responder, pessoalmente a direção.

Esse título em minha intenção representa o organismo em que deve realizar-se um trabalho – que, no campo aberto por Freud, restaure a sega cortante de sua verdade; que reconduza a práxis original que ele instituiu sob o nome de psicanálise ao dever que lhe compete em nosso mundo; que, por uma crítica assídua, denuncie os desvios e concessões que amortecem seu progresso, degradando seu emprego.

Este objetivo de trabalho é indissociável de uma formação a ser dispensada nesse movimento de reconquista. O que equivale a dizer que nela estão habilitados de pleno direito aqueles que eu mesmo formei, e que para ela estão convidados todos os que puderem contribuir para introduzir, dessa formação, o bem-fundado da experiência.

Os que vierem para esta Escola se comprometerão a cumprir uma tarefa sujeita a um controle interno e externo. É-lhes assegurado, em troca, que nada será poupado para que tudo o que eles fizerem de válido tenha a repercussão que merecer, e no lugar que convier.

Para a execução do trabalho, adotaremos o princípio de uma elaboração apoiada num pequeno grupo. Cada um deles (temos um nome para designar esses grupos) se comporá de no mínimo três pessoas e no máximo cinco, sendo quatro a justa medida. MAIS UM encarregado da seleção, da discussão e do destino a ser reservado ao trabalho de cada um.

Após um certo tempo de funcionamento, os componentes de um grupo verão ser-lhes proposta a permuta para outro.

O cargo de direção não constituirá uma chefia cujo serviço prestado seja capitalizado para o acesso a um grau superior, e ninguém terá como considerar-se rebaixado por retornar à categoria de um trabalho de base.

Isso porque toda e qualquer iniciativa pessoal recolocará seu autor nas condições de crítica e de controle controle também é o termo francês para “supervisão”. (N.E.)> nas quais todo trabalho a ser empreendido será submetido à Escola.

Isso não implica, de modo algum, uma hierarquia de cima para baixo, mas uma organização circular cujo funcionamento, fácil de programar, se firmará na experiência.

Constituímos três seções, cujo funcionamento assegurarei, com dois colaboradores que me secundarão em cada uma.

1. SEÇÃO DE PSICANÁLISE PURA, ou seja, práxis e doutrina da psicanálise propriamente dita, que não é nada além – o que será estabelecido no devido lugar – da psicanálise didática.

Os problemas urgentes a serem formulados sobre todas as questões da didática encontrarão aqui meios de ter seu caminho aberto por um confronto contínuo entre pessoas que tenham a experiência da didática e candidatos em formação. Sua razão de ser fundamenta-se naquilo que não há por que ocultar: na necessidade que resulta das exigências profissionais, toda vez que elas levam o analisante em formação a assumir uma responsabilidade, por menos analítica que seja.

É no interior desse problema e como um caso particular que deve situar-se o problema da entrada em supervisão. Prelúdio para que se defina esse caso com base em critérios outros que não a impressão de todos e o preconceito de cada um. Pois sabemos que essa é atualmente sua única lei, ao passo que a violação da regra implicada na observância de suas formas é permanente.

Desde o início e na totalidade dos casos, uma supervisão qualificada será assegurada, nesse contexto, ao praticante em formação em nossa Escola.

Serão propostos para o estudo assim instaurado os aspectos pelos quais eu mesmo rompo com os standards afirmados na prática didática, assim como os efeitos imputados a meu ensino sobre o curso de minhas análises, quando sucede a meus analisantes, a título de alunos, assistir a eles. Incluiremos nisso, se necessário, os únicos impasses a serem destacados de minha posição em tal Escola, ou seja, aqueles que a própria indução a que visa meu ensino engendraria em seu trabalho.

Esses estudos, cujo ponto extremo é o questionamento da rotina estabelecida, serão coligidos pela diretoria da seção, que zelará pelos caminhos mais propícios para sustentar os efeitos de sua solicitação.

Três subseções:
– Doutrina da psicanálise pura;
– Crítica interna de sua práxis como formação;
– Supervisão dos psicanalistas em formação.

Postulo enfim, como princípio de doutrina, que essa seção, a primeira, bem como aquela de cuja destinação falarei no item 3, não se deterá, em seu recrutamento, na qualificação médica, posto não ser a psicanálise pura, em si mesma, uma técnica terapêutica.

2. SEÇÃO DE PSICANÁLISE APLICADA, o que significa de terapêutica e clínica médica.

Nela estarão grupos médicos, sejam eles ou não compostos de sujeitos psicanalisados, desde que estejam em condição de contribuir para a experiência psicanalítica: pela crítica de suas indicações em seus resultados; pela experimentação dos termos categóricos e das estruturas que introduzi como sustentando a linha direta da práxis freudiana – isso no exame clínico, nas definições nosográficas e na própria formulação dos projetos terapêuticos.

Também aqui, três subseções:

– Doutrina do tratamento e de suas variações;
– Casuística;
– Informação psiquiátrica e prospecção médica.

Uma diretoria para autenticar cada trabalho como sendo da Escola, e tal que sua composição elimine qualquer conformismo preconcebido.

3. SEÇÃO DE RECENSEAMENTO DO CAMPO FREUDIANO

Ela assegurará, para começar, o levantamento e a censura crítica de tudo o que é oferecido nesse campo pelas publicações que se pretendem autorizadas por ele.
Ela fará a atualização dos princípios dos quais a práxis analítica deve receber, na ciência, seu estatuto. Um estatuto que, por mais singular que afinal seja preciso reconhecê-lo, nunca seria o de uma experiência inefável.

Por último, ela convocará, tanto para instruir nossa experiência quanto para comunicá-la, aquilo que, do estruturalismo instaurado em certas ciências, puder esclarecer aquele cuja função demonstrei na nossa – e, no sentido inverso, aquilo que, de nossa subjetivação, essas mesmas ciências puderem receber de inspiração complementar.

Em última instância, faz-se necessária uma praxia da teoria, sem a qual a ordem de afinidades desenhada pelas ciências que chamamos conjecturais ficará à mercê da deriva política que se alça da ilusão de um condicionamento universal.

Portanto, também três subseções:

– Comentário contínuo do movimento psicanalítico;
– Articulação com as ciências afins.
– Ética da psicanálise, que é a práxis de sua teoria.

O fundo financeiro, inicialmente constituída pela contribuição dos membros da Escola, pelas subvenções que ela eventualmente obtiver, ou pelos serviços que prestar como Escola, será inteiramente reservada para seu esforço de publicação.

Em primeiro lugar, um anuário reunirá os títulos e o resumo dos trabalhos, onde quer que tenham sido publicados, da Escola, anuário este em que figurarão, mediante sua simples demanda, todos os que houverem neles estado empenhados.

A adesão à Escola será feita mediante apresentação a ela num grupo de trabalho, constituído como dissemos.

A admissão, no início, será decidida por mim, sem que eu leve em conta as posições tomadas por qualquer um, no passado, a respeito de minha pessoa, certo que estou de que aqueles que me deixaram, não sou eu quem lhes quero mal, eles é que quererão cada vez mais mal a mim por não poderem voltar atrás.

Minha resposta, de resto, concernirá apenas ao que eu puder presumir ou constatar a título do valor do grupo e do lugar que ele pretender preencher inicialmente.

A organização da Escola, com base no princípio de rotatividade que indiquei, será instaurada pelos cuidados de uma comissão aprovada por uma primeira assembléia plenária, que se realizará dentro de um ano. Essa comissão a elaborará com base na experiência percorrida ao término do segundo ano, quando uma segunda assembléia terá que aprová-la.

Não é necessário que as adesões abarquem a totalidade deste plano para que ele funcione. Não preciso de uma lista numerosa, mas de trabalhadores decididos, como sou desde já.

A Escola da Causa freudiana, criada e registrada em Paris (França) em 1981, representada por François Leguil, Presidente, e Guy Clastres, Diretor; a Escola do Campo freudiano de Caracas, criada em 1985 e registrada em 1986, em Caracas (Venezuela), representada por Manuel Kizer, Presidente; a Escola Européia de Psicanálise do Campo freudiano, criada e registrada em Paris (França) em 1990, representada por Éric Laurent, Secretário, e Joan Salinas-Rosés, Presidente da primeira Seção; a Escola de Orientação Lacaniana do Campo freudiano, criada no âmbito da “Fundação Euro-Argentina” registrada em Buenos Aires, em 1992, representada por Samuel Basz, Vice-presidente e Jorge Chamorro, Diretor; e a Associação Mundial de Psicanálise, criada e registrada em Paris (França) em 1992, representada por Jacques-Alain Miller, Presidente; estão de acordo sobre a seguinte declaração:

No momento de fundar sua Escola, a Escola Francesa de Psicanálise, no dia 21 de junho de 1964, Jacques Lacan lançava um apelo à “reconquista” do campo freudiano, destinada a recolocar a psicanálise em seu próprio caminho.

O apelo de Lacan ressoou mais além da dissolução da Escola que ele havia fundado – ressoou para além de sua morte, ocorrida em 9 de setembro de 1981 – ressoou longe de Paris, onde vivera e trabalhara. A extensão crescente, no decorrer dos dez anos transcorridos, da rede da Fundação do Campo freudiano (associação sem fins lucrativos), testemunham isso.

É chegado o momento de dar então o próximo passo.

No dia 3 de janeiro último, em Buenos Aires, a fundação da Escola de Orientação Lacaniana, elevando para quatro o número de Escolas do Campo freudiano, abriu no mesmo instante o caminho para a criação da Associação Mundial de Psicanálise. Essa criação recebeu a aprovação imediata das quatro Escolas, o encontro foi marcado para o dia 1 de fevereiro em Paris, a fim de ser assinado o documento presente.

Em consequência, a Escola da Causa Freudiana, a Escola do Campo Freudiano de Caracas, a Escola Européia de Psicanálise do Campo Freudiano, a Escola de Orientação Lacaniana do Campo Freudiano e a Associação Mundial de Psicanálise, concordam com o que se segue:

– que as quatro Escolas aderem neste dia à Associação Mundial de Psicanálise, que as aceita a título de membros institucionais;
– que os membros das quatro Escolas tornar-se-ão automaticamente membros da Associação Mundial, de acordo com as normas que serão estabelecidas pelo Conselho de cada Escola;
– que os títulos do gradus analítico concedidos pelas quatro Escolas, segundo os procedimentos estabelecidos, serão reconhecidos por cada uma e pela Associação Mundial.

Está igualmente admitido:

– que a primeira “Convocatória” da Associação Mundial ocorrerá em Caracas (Venezuela) em julho próximo;
– que a Associação Mundial terá sua Assembléia Geral a cada dois anos, na ocasião dos Encontros Internacionais do Campo freudiano, a primeira ocorrerá em 1994;
– que a Associação Mundial publicará um primeiro Anuário, e para esse fim, cada uma das Escolas comunicar-lhe-á no melhor dos prazos, com suporte informático, a lista de seus membros para inclusão nesse Anuário;
– que o valor da primeira cota anual dos membros da Associação será fixada pelos signatários, representando as quatro Escolas e a Associação Mundial.
Os signatários, enfim, estão de acordo em estabelecer, no mais breve dos prazos, o texto dos estatutos da Associação Mundial, que será anexada ao presente pacto.

Realizado em Paris, em 1 de fevereiro de 1992.