
É tempo de permutação na Fapol.
Ler essa experiência com a erótica do tempo, proposta por Jacques-Alain Miller, é uma forma de dizer que permutar implica algo a mais do que uma simples alternância de funções. Desde o instante do convite para assumir uma função até o momento de concluir, fazemos a experiência de um tempo movido por uma excitação singular, efeito da coalescência entre a causa própria e a de tantos outros.
O ato de permutação é um corte que conta com um real irredutível: não há relação, mas há laços. Eros joga sua partida num tempo que refaz o que desfez[1]:: corpos, línguas, sintomas e modos de trabalhar passam a coexistir no inédito que a permuta inaugura – um presente espesso, uma nova dit-mension libidinal – grupos de WhatsApp, salas de Zoom, mensagens, reuniões, impasses, leituras, escritas, conversas, viagens, crises e alegrias. E isso dura o tempo de um infinito curto, cuja vibração frenética impulsiona o trabalho de uma comunidade diversa em seu fazer com Lacan, na América Latina.
Quando convidada por Ricardo Seldes para integrar o Bureau da Fapol, perguntei-lhe o que era e o que fazia uma Federação. Ele disse: “Não sei bem o que é, mas pode ser um fazer juntos”. Guardei tal sintagma como uma orientação libidinal precisa da experiência federativa. E me dei conta, só agora, que esse “fazer juntos” foi a bússola da Fapol para fazer existir o laço estreito entre as três escolas – EBP, EOL e NEL – e fazer presente nelas, bem como nos doze países onde se estende a sua ação, a política da orientação lacaniana que anima a AMP.
Fui dormir pensando nisso e acordei com Freud em Além do princípio do prazer, precisamente na passagem em que ele comenta pesquisas científicas de sua época sobre a imortalidade da substância viva em organismos unicelulares. Ali ele conta que um pesquisador norte-americano acompanhou milhares de gerações de um paramécio ciliado, conhecido como bichinho com pantufas, e, a cada vez, isolava o produto de cada partição em água fresca. O resultado era surpreendente: os bichinhos mantinham o vigor de seus ancestrais, sem sinais de envelhecimento ou degeneração.
Porém, outros pesquisadores observaram algo diferente. Quando deixados à própria sorte em seu meio original, os paramécios enfraqueciam, diminuíam de tamanho, perdiam parte de sua organização e acabavam morrendo, se não recebessem certas influências revigorantes[2].
Dessas pesquisas, Freud destaca dois aspectos: o primeiro é que esses bichinhos não envelheciam quando fundiam dois a dois: copular – para depois de algum tempo, se separar –, tornando-se, por assim dizer, rejuvenescidos. Tal efeito revigorante não era exclusivo da cópula, pois também acontecia sob a influência de outros meios estimulantes: alterações na composição do líquido nutritivo, aumento da temperatura e agitação[3].
O segundo aspecto anotado por Freud faz saber que a divergência dos resultados entre os pesquisadores devia-se ao fato de que o pesquisador norte-americano transferia cada nova geração para um líquido nutritivo fresco. Quando deixava de fazê-lo, observava os mesmos efeitos de envelhecimento descritos pelos demais. A hipótese era que os organismos eram prejudicados pelos produtos metabólicos que eles próprios eliminavam no líquido que os envolvia. Freud sublinha então esse detalhe: os paramécios, se imersos em seus próprios resíduos, pereciam; mas se colocados numa solução saturada dos dejetos de aparentados mais distantes, cresciam de modo excelente.
Dessas experiências, Freud extrai que a vitalidade do que quer que seja deriva da conexão: com água fresca, com outros organismos, ou mesmo com os dejetos alheios. A imersão na própria substância enfraquece; o que revigora é o choque da extimidade, um advir que só de alhures se faz ouvir.
Freud, ao final, nos convida a considera que
[…] a união de inúmeras células em uma associação pela vida, a multicelularidade dos organismos, tornou-se um meio de prolongar a sua duração de vida. Uma célula ajuda a conservar a vida das outras […] a fusão temporária de dois unicelulares produz em ambos o efeito conservador da vida e rejuvenescedor[4].
É a força muda de Eros, o mesmo dos poetas e filósofos – dirá Freud – que mantém unido tudo o que é vivo.
Essa passagem ajudou-me a ler o que acontece na experiência da Fapol. Sua vitalidade está no fazer juntos: na conexão entre Escolas, cidades, gerações, línguas, estilos e modos de operar com a matéria sutil que joga sua partida na experiência analítica.
Nos últimos anos, a esse fazer juntos somamos a indicação de Jacques-Alain Miller de que, para fazer avançar a psicanálise, não basta praticá-la e transmiti-la; é preciso ajudar a reinventá-la. Ou seja, é preciso encontrar os meios de manter o seu frescor. Isso exige cortes, deslocamentos e novas conexões. No texto da dissolução, Lacan encontra a solução e a propõe como um princípio de trabalho. Cruzo então Lacan com Freud:
“É preciso que eu inove [rejuvenescimento]. Não todo só. Que cada um coloque aí o que há de seu [preciosos dejetos]. Reúnam-se vários, grudem o tempo necessário para fazer alguma coisa e depois se dissolvam. [– copular – para depois de algum tempo, se separar]. De onde se deduz que isto só durará no temporário.”
Eis aí a erótica do tempo!
De Freud a Lacan, a lógica da permutação, tal como um princípio do funcionamento da Escola instalado por Miller, é um princípio de rejuvenescimento, que mantém vivo o gérmen da causa analítica: uma aposta na influência revigorante das águas frescas.
Essa leitura esclarece a orientação libidinal presente no funcionamento dos dispositivos da Fapol, cujo trabalho deságua nas crateras termais das conversações federativas, fonte permanente de água fresca e verdadeiro pulmão da Fapol.
Em cada Observatório, na Rede de Estudos sobre o Autismo na América Latina (Real), na Rede de Psicanálise Aplicada (RPA), na Rede Universitária Americana (RUA), nas edições das revistas Cythère? e Lacan XXI, e sobretudo no grande encontro que é o Enapol, analistas das três Escolas mergulham na substância da clínica para dela extrair um saber inédito. Não faltam, nesses ambientes, as condições para uma experiência revigorante: substância nutritiva fresca, alta temperatura e agitação.
A Fapol é hoje, para mim, esse espaço topológico e libidinal entre Escolas onde o caminho mais curto nunca é uma reta, o tempo não é linear tampouco homogêneo – ele acelera, desacelera, se interrompe, retroage e se relança movido pelo acontecimento, o corte, a surpresa, o ponto de basta. A diversidade revigora. O múltiplo se enreda ao Um heterogêneo. Na conversa entre tantos, o inesperado cai da experiência – o que falha, insiste, transborda e surpreende –, um achado sutil que faz avançar a psicanálise. Sobras e restos nos interessam[5] – Cazuza é milleriano –, a salvação é pelos dejetos.
É esse vigor que encontrei nas águas da Fapol: nesse fazer juntos, lalínguas se encontram e entrelaçam suas asas analíticas e patas sociais, copulam com muito Ziriguidum, dando vida ao ensino de Lacan e sua oferta na América Latina. Fazem o amor, na verdade! Amor à causa analítica.
Um trabalho com tal intensão e extensão é efeito da força tamanha da vasta comunidade de trabalho que aí colocou o que há de seu para fazer junto alguma coisa – que só dura o temporário – até que chegue um novo corte a repartir os corpos de outra maneira, esvaziar águas passadas, irrigar o campo com água fresca – e manter vivo o trabalho de Escola entre Escolas!
Bem… me detenho por aqui.
Já está chegando a hora de ir… mas antes de partir servir-me-ei o último gole de água impura para brindar aos muitos com quem pude compartilhar a alegria desse fazer juntos.
Nesses dois anos, encontrei água fresca nos Observatórios, nas Redes da Fapol e em suas publicações. Agradeço a cada coordenador, editor, leitores e participantes desse “fazer juntos” que tanto tem ensinado à Psicanálise mesma.
Muito também nos deu de beber o XII Enapol, graças ao desejo arejado de Helenice de Castro, Ana Viganò, Irene Kuperwajs, Ludmila Féres Faria, Simone Souto, Marcus André e das centenas de colegas que aceitaram colocar o corpo para falar com a criança. Que encontro, mon Dieu!!!
Ana Tereza Groisman, Nohemí Brown e Paola Salinas: com vocês, brindo o gosto do redemoinho das águas quando, num instante oportuno, ocorrem reviramentos decisivos. Navegar é preciso! Agradeço, com elas, a Bruno Sena, Alice Evangelista, Kesia Ramos, Miguel Antunes, navegadores obstinados que, sem fronteiras e fuso horário, trouxeram o barco até aqui.
Por fim, agradeço a presença e a confiança de Jacques-Alain Miller, em cada sorriso; a parceria luminosa e ensinante de Ricardo Seldes, Christiane Alberti e Ève Miller-Rose, bem como o entusiasmo de Flory Kruger e o apoio esclarecido do Conselho que acaba de aprovar o novo estatuto para a Fapol. O encontro com cada um de vocês, em cada estação, nos instantes de calmaria ou de turbulência e instabilidade meteorológica, foi abrigo e orientação no caminho das águas que movem nosso mundo.
Foi no curso dessas águas correntes que encontrei Gabriela Camaly e Maria Hortensia Cárdenas – um bureau, tecido entre línguas, estilos e modos de fazer distintos, mas enredados pelo desejo de levar mais longe a experiência federativa da Fapol, ou seja, a experiência da psicanálise da orientação lacaniana em terras latinas. Um bureau imerso nas águas do feminino e que soube com isso inventar a potência de um trabalho que se encerra hoje para seguir de outra maneira. Las voy a estranhar. Agora, com a chegada de Elisa Alvarenga, a barca segue o curso de sua vertente com força renovada.
Confesso que, enquanto escrevia este mapa das fontes de água fresca que encontrei no caminho, as palavras amiga, amigo, se impunham à escrita; eles e elas brotam do manancial do campo freudiano, se instalam do lado esquerdo do peito para nunca mais permutar. Eles se somam agora à lista dos meus amores de longa data, hoje aqui presentes, a quem agradeço: Ana Lúcia Lutterbach, Marina Recalde… e Pierre Louis Brisset: uma fonte que nunca seca!
Seguimos, afinal!
A função dura o espaço de um lapso… a eólia sopra e traz o perfume de um novo tempo. É esse o presente que levo comigo: uma nova relação com a causa analítica, uma nova língua, novos amigos e uma nova vida que brota do rasgo do tempo desta experiência: isso mexe, isso bole, se desloca, isso muda. Eros e tiqué se enlaçam – um corte abre passagem ao inesperado.
É momento de concluir.
E é com confiança na força da erótica da permutação – esse corte no tempo que banha o presente com a potência das águas frescas de um futuro contingente – que esta presidência se dissolve, com grande alegria, neste ato que passa a palavra à nova presidenta da Fapol, Gabriela Camaly.
Fernanda Otoni Brisset
06.06.2026
[1] Música “Todo sentimento” de Chico Buarque (1987)
[2] FREUD, S. Além do princípio do prazer. In: FREUD, S. Editora Autêntica, p. 161.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem, p. 163.
[5] Música Maior abandonado de Cazuza – Barão Vermelho1984)