Ricardo Seldes

Chegou a hora de uma nova permutação na Fapol, enquanto órgão de direção.

Quando Jacques-Alain Miller fez circular, há alguns anos, no Brasil, o sintagma “a erótica do tempo”, introduziu uma expressão cuja força permanece intacta. Porque para a psicanálise o tempo nunca foi cronológico, simplesmente. Nunca é somente duração, sucessão ou medida.

Vivemos uma época dominada pela aceleração.

Há um empuxo em direção ao imediato: responder rápido, concluir rápido, compreender rápido. Inclusive os algoritmos prometem hoje antecipar nossos desejos. O desejo nunca coincide completamente com essa lógica de programação, é algo menos imediato, mais contraditório, contorna um dizer que foi despertado em seu deciframento e em sua construção, geralmente árduos.

O gozo e a urgência se converteram no modo quase normal do vínculo social.

O tempo contemporâneo tende cada vez mais a se reduzir a um tempo de sincronização.

Entretanto, a psicanálise introduz outra experiência do tempo.

Introduz uma torsão.

Na psicanálise é preciso tempo, dizia Lacan.

Em “Função e campo da palavra”, Lacan se perguntava pela medida do tempo próprio do inconsciente. E para situar o problema evocava o relógio de Huygens e o nascimento do “universo da precisão”. Destacava, inclusive, que o mal-estar do homem moderno não demonstrava precisamente que essa precisão fosse um fator de liberação.

A referência é extraordinária e segue sendo completamente atual.

O relógio de Huygens representa o ideal moderno de um tempo homogêneo, calculável, sincronizável. E o inconsciente não funciona assim.

O inconsciente – diz Lacan – “pede tempo para se revelar”. E esse tempo não coincide com o tempo dos relógios, sua prática com sessões breves demonstra isso. Lacan vai formalizar mais tarde como uma pulsação temporal de abertura e fechamento.

O inconsciente não está sempre ali, disponível e transparente. Ele abre e se retrai.

Aparece e desaparece. E essa temporalidade depende da transferência, de sua erótica.

Há algum tempo trabalhei com colegas do Brasil algumas questões sob o título “A erótica da interpretação”. Foi então que descobri que não havia interpretação sem uma tensão entre espera e surpresa, entre saber e contingência. Hoje afirmo que não existe interpretação sem uma erótica do tempo. Porque uma interpretação não depende somente do que se diz.

Depende também do momento. Do instante oportuno. De uma espera. De um silêncio.

De algo contingente que irrompe. Além do mais, sabemos que a própria transferência introduz um paradoxo temporal decisivo.

Freud já havia advertido que a transferência aparece, muitas vezes, precisamente ali onde algo do trabalho analítico encontra uma resistência.

Existe, então, um tempo próprio da análise que não responde à programação e tampouco ao cálculo. É um tempo feito de encontros. Às vezes, basta uma palavra, um corte, um equívoco, para produzir um despertar inesperado. Não porque exista um saber técnico capaz de calcular perfeitamente os efeitos de uma interpretação, mas justamente porque a análise opera em uma zona onde o saber encontra um limite.

Certamente, coincidimos com a ideia de que a interpretação introduz uma surpresa capaz de romper o tédio repetitivo do Um. A erótica do tempo toca, então, essa dimensão da contingência, da tyché, do encontro não programado.

E me parece que isto vale tanto para uma Escola como para uma Federação.

Uma instituição analítica não se sustenta por regulamentos, programas ou administrações necessárias. Sustenta-se por uma transferência de trabalho.

Isso implica saber fazer com o tempo: com os tempos de elaboração, com os tempos de compreender, com os momentos de concluir e também, com as permutações.

Uma permutação não é somente uma substituição administrativa.

Tem uma função lógica e também, ética.

Trata-se de relançar um desejo de trabalho sem cristalizá-lo em identificações fixas.

A Federação Americana de Psicanálise de Orientação Lacaniana reúne três Escolas com histórias, estilos e temporalidades diferentes.

Talvez uma Federação analítica não deva aspirar a funcionar como os relógios de Huygens porque não se trata de produzir uma sincronização perfeita entre as Escolas, nem de fazê-las oscilar no mesmo ritmo.

Talvez esse seja o verdadeiro problema de uma Federação analítica: como sustentar um trabalho comum sem apagar as desigualdades. Como fazer existir um laço sem exigir homogeneidade. Como relançar um desejo de trabalho preservando as diferenças.

Vimos recentemente no trabalho realizado em torno do último ENAPOL, todos se lembram, na renovação das Redes e Observatórios e também, na colocação em marcha do REAL, que abriu novas condições para a investigação e a prática com sujeitos autistas.

Além do mais, Fernanda Otoni mostrou como uma presidência pode relançar, com decisão e alegria, o laço entre as Escolas e a interface com o Campo Freudiano, acompanhada por Gabriela Camaly, María Hortensia Cárdenas e tantos colegas que, a cada vez que são convocados, fazem existir com seu trabalho cotidiano, esta experiência singular que é a FAPOL.

Penso que essa experiência nos ensinou algo muito simples e muito valioso: uma instituição analítica permanece viva somente se conserva aberta certa relação com a contingência, com a invenção e com o desejo.

Uma permutação não é somente uma substituição administrativa. Tem também uma função lógica e ética. Introduz uma descontinuidade necessária para que o trabalho não fique capturado em identificações fixas, nem em inércias institucionais.

Talvez seja isso, afinal, a erótica do tempo.

Não o tempo da sincronização perfeita.

Não o tempo da aceleração.

Mas o tempo necessário para que uma palavra encontre suas consequências.

Em uma época dominada pela aceleração e pela sincronização, a psicanálise continua apostando em outra temporalidade: a de uma palavra que dura.

Damos as boas-vindas ao nova Bureau da FAPOL, a sua nova Presidenta, nossa amiga Gaby Camaly, à querida María Hortensia Cárdenas como vice e à Elisa Alvarenga que soube estar à frente da AMP América durante longos anos e será agora a Secretária da Federação.

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O que dizer de Fernanda Otoni que deixa a Presidência de uma FAPOL renovada? Sou testemunha da transformação efetiva que o Bureau produziu nos últimos dois anos.

Mas seria injusto medir essa transformação somente por suas realizações. Fernanda não somente impulsionou uma profunda renovação institucional da Federação; soube também imprimir um estilo. Um estilo feito de decisão e delicadeza, de rigor e alegria, de trabalho sustentado, de bom gosto e de uma distinção que hoje reconhecemos como uma marca própria da Federação.

Aqueles que tiveram o privilégio de acompanhá-la sabem o quanto a Federação lhe deve por seu desejo de autenticidade, por sua generosidade e por sua capacidade para fazer existir o trabalho comum, respeitando as diferenças de cada Escola.

Agora fica em nossas mãos fazer frutificar o que seu desejo soube colocar em marcha.

Tradução: Raquel Diaz Degenszajn