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Por Fátima Sarmento

 

Frente à inexistência do Outro, ocorre o deslocamento do estatuto da criança do lugar de ideal, previsto por Freud através da sua conhecida fórmula “sua majestade o bebê”, para o lugar de “criança-objeto”. Ademais, esse lugar reservado para a criança já havia sido profetizado por Lacan desde a década de 60. Lacan [1] previu que o progresso da ciência levaria a uma segregação. Isso pode ser comprovado na atualidade através do interesse da ciência e do mercado em criar uma linguagem universal do sintoma, como mostra o Manual Estatístico de Diagnóstico (DSM) elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria. São inúmeros transtornos mentais tendo por alvo as crianças: o fracasso escolar, por exemplo, que prevaleceu na década de 80, foi substituído no DSM III pelo diagnóstico da síndrome de déficit de atenção-TDA, que, em inglês é conhecido como ADD (Attention Defici Desorder). O de déficit de atenção e hiperatividade surge em 1987 com o DSM III-R. Já o DSM-IV considera que se o TDA for acompanhado de uma grande atividade, impulsividade e desatenção, o transtorno será denominado de “Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade”, TDAH (ADHD- Attention Deficit Hyiperactivity Disorder).

Na época atual algumas crianças pequenas já chegam ao analista, medicadas, diagnosticadas. Isso comprova que o controle do comportamento se constitui hoje como o futuro programa social do século XXI e, conforme Tarrab [2] isso se deve ao fato do sintoma e da angústia serem intoleráveis para a sociedade da eficiência. Assim, face à infância difícil, é o paradigma da solução química que se impõe nesse século. Crianças super medicadas em função da apresentação de “distúrbios”, educadores que se lançam a dar diagnósticos pela simples observação do comportamento, fazem parte do cotidiano escolar. Esses “distúrbios” não chegam a se constituir como sintomas, uma vez que servem para velar o mal estar e a angústia. Para Ansermet [3] o DDA e TDAH são sistemas de gozo nos quais o sujeito se aliena em eco à cultura na qual se encontra imerso, submerso. Para a psicanálise eles devem ser escutados como signos de gozo de um sujeito que responde as novas ofertas da ciência. Para Tendlarz [4] as crianças portadoras desses “distúrbios” padecem de uma dificuldade na operação de separação, o que retorna no real do corpo da criança como uma agitação maníaca. A falha simbólica dá lugar ao excesso que aparece no corpo, impedindo que a criança mantenha a atenção para concluir as suas tarefas.

Nessa direção, as crianças se apresentam hoje reduzidas a uma classe, sem nenhuma responsabilização com o que lhes ocorre. Aliás, a medicação vem cumprir esse papel de desresponsabilizar. A pílula da obediência foi inventada para acalmar as crianças classificadas como “hiperativas”, a pílula da felicidade para as catalogadas como “deprimidas”. Com as classificações ocorre uma passagem da ordem simbólica para o que Lacan [5] denominou de “ordem de ferro”, que dá lugar a uma degeneração catastrófica, que aqui toma a forma da medicação como a via eleita para o tratamento. Há uma ilusão de que o medicamento possa suprimir o mal estar. No entanto, para a psicanálise o sintoma é causado por um parasita que se chama linguagem. Veras [6] considera que nesse caso o remédio que eliminaria o sintoma traria, como efeito colateral, tal como lemos nas bulas de alguns remédios o exitus letalis.

Ainda na década de 60, Lacan lança a hipótese da “criança generalizada” remetendo-se às Antimemórias de André Malraux nas quais faz referências ao fato de que não haver pessoas grandes. Se não existe gente grande, todos somos crianças. O que vai distinguir a criança do adulto é a posição ética em relação ao modo de gozo. O termo “criança generalizada” equivale estabelecer o mesmo gozo para todos e ainda evidencia a tendência à objetalização do sujeito, em decorrência da aliança entre a ciência e o capital. É evidente que a criança não nasce sujeito, ela cai no mundo como objeto, como resto de uma parceria e, para ser sujeito é preciso que ela seja adotada pela linguagem e pela via dos cuidados e amor do Outro. Enquanto a criança não atingir uma condição mínima de sujeito, ou seja, não conseguir fazer a pergunta sobre o que é no campo do Outro, só haverá lugar para as atuações. Cabe ao analista voltar a sua escuta para a relação da criança com seu corpo, só assim ele estará em conformidade com a orientação dada por Lacan ainda na década de 60: “opor a que seja o corpo da criança que corresponda ao objeto a”.

Na clínica constatamos ainda as dificuldades dos pais em relação a violência dos filhos na escola, ao uso excessivo dos objetos tecnológicos, ao desinteresse pelas atividades escolares, a demanda excessiva para aquisição de objetos de consumo. Nessa direção, Najles [7] admite que o império do mercado transformou nosso mundo em um espaço global, o qual não deixa de ter consequências sobre qualquer ser falante. Através dos meios de comunicação como solidários a esse mercado global, a criança vai colocando em evidência a impotência do Outro. Os pais não são mais os reis magos na mente infantil: nos tempos da inexistência do Outro, o mercado toma a dianteira. Se no discurso do mestre o sujeito nada sabe sobre o que o faz gozar, no discurso capitalista ao contrário, há uma relação direta do gozo com o sujeito.

Duas evidencias podem ser aqui destacadas em relação ao discurso capitalista: por um lado, observamos efeitos de um gozo que caminha sozinho e, por outro lado, ainda que contrariando ao senso comum, assistimos a inclusão da criança nesse tipo de discurso. Em algum momento todos os sujeitos são fisgados por esse discurso e colocados nesse lugar de objetos de consumo. Nesse sentido, não há como a criança escapar a essa realidade. Ademais, enquanto consumidores somos todos crianças. Se o mal-estar na civilização atual não responde mais ao significante mestre, se o nome-do-pai já não oferece nenhuma garantia sobre a maneira de tratar o gozo, os objetos de consumo passam a ordenar o modo de gozo da época. Lacan [8] assinala que a latusa é a produção de um objeto de gozo que consegue substituir o objeto (a) e o seu êxito é justamente manipular a causa do desejo. Nesse sentido, a ciência, comandada pelo discurso capitalista governa a causa do desejo. Baseando-se em Lacan, Alvarez [9] analisa a conseqüência disso: acreditando consumir a latusa, é o sujeito que é consumido, momento de inversão da fantasia, no fundo, o sujeito é um objeto. O capitalismo para Lacan é isso: o que esse discurso consome, sua matéria, é o próprio sujeito.

Na sequência podemos concordar com o que muitos autores sustentam em relação à época atual- a maior identificação proposta ao ser falante é a identificação ao consumidor. As crianças, como já vimos, são um dos alvos preferidos das estratégias do mercado. A indústria farmacêutica está de olho nessa evidencia- as crianças são uma presa fácil para estimular as vendas de medicamentos. Para aumentar a sua rentabilidade, a indústria farmacêutica teve a ideia de inventar várias doenças. Aflalo [10] considera que as doenças que estarão na moda amanhã são decididas nos escritórios de marketing dos grandes laboratórios e é a eles que devemos a emergência de dois novos alvos: as crianças bem pequenas e os idosos. A autora assinala que o marketing eficaz da indústria farmacêutica convence os pais a psiquiatrizar as emoções de cada momento da infância e da adolescência: da irritabilidade das crianças pequenas até a angústia do adolescente, cada afeto pode se tornar rentável. Aflalo sinaliza ainda algumas modas fatais: depois da moda do TDAH, os experts queriam impor a ideia que o choro e a irritabilidade das crianças pequenas passaram a ser interpretados como sinais de depressão. Assim, vários TDAHs foram rediagnosticados como “Transtornos bipolar juvenil”, fazendo explodir as vendas de anti depressivos.

Aflalo sustenta que para evitar as controvérsias e continuar com as prescrições, o DSM- 5 desfaz seus antigos diagnósticos e os substitui por outro nome: a Desregulação do temperamento com disforia (TDD). Atualmente, graças a eficácia do marketing “10% dos meninos de dez anos tomam estimulantes para TDAH, 500 mil crianças estão sob a influência de neurolépticos”. [11]. O espectro do autismo (TSA) é também uma nova moda da mesma natureza. Aflalo ainda comenta que a nova prática dos psiquiatras nos Estados Unidos consiste em “colocar etiquetas”, avaliar os pacientes a fim de obter destes uma correspondência a um dos transtornos catalogados pelo DSM. Dessa maneira, um paciente pode, assim, descobrir-se adornado por vários diagnósticos diferentes. Em conseqüência disso, uma prescrição básica pode conter cinco medicamentos: para depressão, angústia, insônia e ainda, outros para lutar contra os efeitos colaterais dos medicamentos prescritos. A autora ainda denuncia que a prática das terapias pela palavra não é considerável “rentável”, é mais lucrativo para um psiquiatra prescrever medicamentos.

Finalmente, A psicanálise se opõe à “criança generalizada” e aposta que através do discurso analítico, a criança possa saber virar-se com seu gozo.


Referências:

  1. Lacan,Jacques- Alocução sobre as psicoses da criança. Proferida em 22 de outubro de 1967. Outros Escritos p. 367. Campo Freudiano no Brasil- Jorge Zahar Editor 2001.
  2. Tarrab, Maurício-” As crianças de Skinner e as soluções químicas. Lacan Cotidiano número 139-Português [EBP- Veredas] Disponível em www.lacanquotidien.fr
  3. Ansermet, François- Tudo imediatamente. In: Correio n.70 Revista da Escola Brasileira de Psicanálise Dezembro 2011.
  4. Tendlarz, Sílvia Elena- La atención que falta y La actividad que sobra. In: DDA, ADD, ADHD como ustedes quieran. El mal real y La construcción social- Gustavo Stigliz (compilador). Grama Ediciones, 2006.
  5. Lacan,Jacques (1973-1974). Les non-dupes errent.Paris, inédito.
  6. Veras, Marcelo- “A prevenção do (anor)mal –Boletim Um por Um de 21 de março de 2013
  7. Najles, Ana Ruth- La política del mundo global- Nueva Escuela Lacaniana Del Campo Freudiano/ México DF Disponível em ; https://mai.google.com/mai/u//0/ui?
  8. Lacan, Jacques- (1969-1970) O seminário livro 17- O avesso da psicanálise- Jorge Zahar, Editor p.153.
  9. Alvarez, Patricio- Latusas- aletosfera –Scilicet-AMP- Um real para o século XXI Scriptum- Escola Brasileira de Psicanálise. p. 443 .
  10. Aflalo, Agnès- Autismo Novos espectros novos mercados- Coleção Psicanálise e Ciência- KBR- Petropólis, 2014.
  11. 11- Aflalo conforme Angell, M. À qui profitent lês psychotropes?. In: Books, op. cit., p.34.