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Por Blanca Musachi

No início do século XIX, Sigmund Freud pôs a investigação psicanalítica a serviço de uma definição ampliada da sexualidade humana, considerando a importância do gozo sexual independente da reprodução, o que é possível constatar nos estudos das perversões e da sexualidade infantil. O que há de novo, com Freud, é que na sexualidade humana não se trata de instinto, como no reino animal, mas de uma pulsão sexual. O objeto é indiferente, pois pode ser qualquer um em torno do qual a pulsão realiza o percurso para sua satisfação. Freud também causou escândalo em sua época ao afirmar a inexistência do feminino e do masculino em estado puro.

No texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade[1]”, de 1905, Freud estabelece o estádio fálico da organização sexual e abre um novo rumo para suas elaborações sobre a sexualidade. A ideia de uma teoria sexual completa é abandonada e a questão sobre a sexualidade feminina é suficientemente importante para ocupar-lhe desde outra perspectiva: a da diferença entre os sexos, prevalecendo a dissimetria.

Em uma nota de rodapé, acrescentada aos “Três ensaios” em 1910, Freud observa a diferença entre a vida sexual no mundo antigo e a de sua época, para destacar que os antigos celebravam a pulsão que a atualidade menosprezava, enfatizando o valor do objeto.

Freud estava falando no marco da sociedade burguesa, da moral sexual civilizada que deitava em seu divã, para devolver, especialmente às mulheres, o poder da palavra para bem-dizer o sexo. Mas hoje, no marco do capitalismo das nossas sociedades ocidentais, em que termos podemos falar da diferença entre a vida sexual na época de Freud e na nossa?

Para contextualizar uma serie de considerações sobre o que há de novo no ser sexuado no século XXI, é preciso situar que, para Freud e sua teoria falocêntrica, era a estrutura simbólica do Complexo do Édipo, comandada pelo Nome do Pai, que organizava o mundo simbólico de um sujeito, tendo como ponto central o significante do falo para ordenar a sexuação do lado masculino e do lado feminino, segundo o par falo-castração.

Lacan retoma, em seu primeiro ensino, esse marco do Complexo do Édipo nos termos da metáfora paterna e da significação do falo, direcionando-se ao que levará, em seu último ensino, a um mais além da lógica fálica, da lógica do Édipo, para reordenar o campo do gozo mais além do falocentrismo. Isso foi possível a partir da designação freudiana de que o feminino é um “continente negro”, que Lacan retoma em termos de gozo.

A novidade que introduz Lacan é o Não-todo do gozo feminino, que importa a homens e mulheres, porque o que está em jogo é o feminino como alteridade irredutível à lógica significante dos gêneros e das identidades sexuais. O que interessa é a posição de gozo do falasser e o feminino que habita em cada um, que escapa ao gozo fálico e a sua lógica binária[2].

Laurent[3] comentava recentemente, no contexto de umas jornadas sobre política das identificações, que em Freud não era um problema a questão do ser homem, ser mulher, mas que a questão que o preocupava era o limite com o qual se encontrava nas análises, o rochedo da castração tanto do lado dos homens quanto das mulheres, que finalmente tinha a ver com a recusa do feminino para ambos, e que a leitura desde a estrutura do Complexo do Édipo, com o falo como central, não permitia superar.

A partir do ensino de Lacan, mais além do falocentrismo, o ser sexuado poderá ser lido em termos de sexuação, mais além do Édipo. Trata-se de um novo paradigma para ler a clínica, onde o feminino obriga a considerar que não temos mais um universo circular, onde os corpos gravitam apenas em torno a um único centro, que é o falo simbólico. É por isso que Lacan vai se servir da figura da elipse, que tem dois focos, que são o falo como centro e o gozo do Outro, também chamado de Outro ponto cego, que não seria o gozo fálico, mas um gozo Outro. Então, ler o ser sexuado em termos de sexuação implica uma leitura em termos de posição de gozo do sujeito, não mais em termos de identificações, mas de escolha do sujeito como resposta ao gozo pulsional[4].

A partir dessas considerações podemos avançar para destacar, em particular, outras formulações introduzidas desde o último ensino de Lacan: 1) “O ser sexuado se autoriza de si mesmo mas não sem outros[5]”; 2) “O sexo é um dizer[6]”.

No momento atual da civilização, onde o desejo do Outro não está tão presente, como diz Miller[7], coloca-se em evidência o axioma do gozo do Um, que Lacan apresenta em seu último ensino, com a função preeminente do objeto a, definido como objeto (a)sexuado, um objeto sem Outro, fundado no Um do gozo – diferente do axioma do desejo como desejo do Outro. Podemos pensar que a política das identidades de gênero da nossa época, é uma das demandas de direito ao gozo. Porém, como observa Laurent, o gozo para a psicanálise é da ordem do imperativo; então, vemos como o direito ao gozo se torna exigência de reconhecimento da primazia do gozo e, em especial, de múltiplos modos de gozo.

O excelente texto de M-H Brousse[8] sobre identidades, identificações e sintoma nos orienta para uma leitura sobre o lugar do gênero como S1 do nosso tempo, como algo novo do século XXI. Trata-se de um novo movimento de reivindicação diferente daquele do feminismo do século XX. O gênero como S1, diz Brousse, vem em substituição do sexo, sai do binário e introduz o neutro, evitando o valor erótico da língua quando se fala em termos de homem ou mulher. Tentativa de reduzir o sexo ao significante e à função de semblante, e o que se reivindica é, como já foi dito, o direito ao gozo do Um do corpo.

As importantes reivindicações, em termos de direitos, conseguidas a partir do posicionamento dos estudos de gênero e das teorias queer, além do fora da lei do gozo sexual na era pós-paterna, que pretende prescindir do pai sem dele se servir, deixa os sujeitos muitas vezes no desamparo da autogestão do seu ser sexuado, desconhecendo que o ser sexuado se autoriza de si mesmo mas não sem os outros, como podemos ver na apresentação dos três tempos da sexuação que Lacan fez no capítulo 1 do Seminário 19[9].

Na articulação sexo e capitalismo temos então a novidade da substituição do sexo pelo gênero, que se institui como novo significante amo da era pós-paterna. A mulher não existe, o homem não existe. Não há mais interesse pela diferença dos sexos, pois o sexo fica “excluído”, e na multiplicação das identidades de gênero, também efeito da pluralização dos nomes do pai, parece ser suficiente a “père-formance” para assumir o sexo sem Outro, mais além do pai sem dele se servir, para uma autogestão do sexo.

O interesse cada vez menor pela questão da diferença sexual, como observa Nathalie Wülfing[10], também nos faz pensar como uma consequência da prevalência do gozo do Um, que cada vez menos se interessa pelo desejo do Outro.

O que temos é o imperativo do gozo do UM, e aqui encontramos a pornografia como “novo paradigma da sexualidade”. Isto pode ser observado, especialmente nos adolescentes, como algo da ordem de uma nova pedagogia da sexualidade, um saber que está no bolso, como diz Miller em seu texto “Em direção à adolescência[11]”. Nele, Miller coloca em questão o que há de novo na adolescência, sublinha uma “autoerótica do saber”, ou seja, o saber está no bolso, não é mais objeto do Outro: “Antes era preciso extraí-lo do campo do Outro pelas vias da sedução, da obediência ou da exigência, o que necessitava que ele (o saber) passasse por uma estratégia com o desejo do Outro”.

Hoje se cultiva a solidão do gozo, que não faz laço. Há intercâmbio de imagens entre os jovens (sexting) e cada vez menos palavras, como conta em consulta uma menina de 13 anos, a quem interessa “estar na pegação, sem se apegar a ninguém”; trata-se de ficar sempre com alguém diferente, pois não é o outro que conta, mas se prioriza o gozo do Um, do corpo próprio.

Qual o lugar da psicanálise? A aposta, orientados pelo ultimo ensino de Lacan, no qual o sexo é um dizer, é que uma experiência analítica é a oportunidade para bem-dizer o sexo, para bem-dizer a castração, especialmente nos chamados sintomas contemporâneos, onde os sujeitos muitas vezes se demitem do lugar de assumir a significação fálica. Onde residiria nossa eficácia? Em extrair um dizer que marcou o corpo como corpo sexuado, liberar a enunciação mais além dos ditos. Contamos para isso, como disse Oscar Ventura[12], com a possibilidade de escandir com o ato analítico, cada vez que for preciso, o impossível em jogo.


* Texto publicado em Lacan XXI, vol. 2, 2018. Disponível: http://www.lacan21.com/sitio/2018/10/22/ser-sexuado-no-seculo-xxi-o-que-ha-de-novo/?lang=pt-br
** Coordenadora pela EBP, do Observatório de gênero, biopolítica e transexualidade da FAPOL no período 2017-2019.

NOTAS

  1. Freud, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1901-1905). O.C. vol.6. São Paulo: Companhia das letras, 2016.
  2. Bassols, M. Heteroelecciones. In: Elecciones del sexo. Madrid, Ed. Gredos, 2015.
  3. Laurent, E. Principio identitario y política del sintoma. Conferência de 2017: http://www.radiolacan.com/pt/topic/1092
  4. Bassols, M. O objeto (a)sexuado. In: Opção lacaniana online 21, novembro, 2016.
  5. Lacan, J. Les non-dupes errent. Aula de 9 de abril 1974 (Seminário inédito; 1973-1974).
  6. Lacan, J. Momento de concluir. Aula de 15 de novembro 1977 (Seminário inédito; 1977-1978).
  7. Miller, J-A. Intuições milanesas II. In: Opção lacaniana online 6, novembro, 2011.
  8. Brousse, M-H. As identidades, uma política; a identificação, um processo; a identidade, um sintoma: In: Opção lacaniana online, 25/26; julho, 2018.
  9. Lacan, J. O Seminário, livro 19. … ou pior; cap. I. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
  10. Wülfing, N. Nenhuma mulher no século XXI. In: L’incs#6-5. O que se escreve, Boletim Jornada EBPMG, out. 2017.
  11. Miller, J-A. Em direção à adolescência. In: Minas com Lacan online; 6 de maio, 2015.
  12. Ventura, O. El porno, sus extravios y su real. In: Elecciones del sexo, Madrid, Ed. Gredos, 2015.