Por Ana Lydia Santiago

Conversação RUA
X Congresso da AMP, em 26/04/2016
As Pós-Graduações, a extensão universitária e a Orientação Lacaniana

A pergunta introduzida por Freud sobre as relações entre a psicanálise e a universidade – Deve-se ensinar a psicanálise na universidade? – tornou-se, com o passar dos anos, uma questão relativamente supérflua. Isto porque a psicanálise conquistou, ao longo dos últimos tempos, de um modo nada estável, é verdade, um lugar efetivo em alguns espaços universitários. Ainda inspirado nesta discussão proposta por Freud, a questão a ser formulada, a meu ver, é a seguinte: em que medida o psicanalista pode lançar mão do saber analítico, nesses espaços, de forma a contribuir para o avanço da psicanálise. Ao introduzir esse ponto, não se desconhece de modo algum o fato fundamental de que a responsabilidade pela formação do analista compete a Escola de Lacan e, sobretudo, quando reforça o que se extrai de sua própria experiência da análise[1].

Universidade e contribuição da psicanálise

Destaca-se, portanto, que esta contribuição do ensino da psicanálise na Universidade se faz, a meu ver, segundo dois aspectos relativos ao saber textual do analista: de um lado, a dimensão propriamente epistêmica que consiste no que usualmente tratamos como as conexões da psicanálise com outros campos do saber; de outro, um saber-fazer que tem relação direta com a prática clínica propriamente dita.

A propósito deste primeiro aspecto, deve-se observar a distinção entre Freud e Lacan no que concerne ao valor das conexões. Em Freud, não é difícil descrever a exuberância das conexões aferentes e eferentes da psicanálise, como é o caso da literatura, história da humanidade, história das religiões, mitologia, antropologia e filosofia, entre outros. Em Lacan, a psicanálise continuou a assumir a extensão desses domínios, com a diferença, como observa J.-A. Miller, que aquilo que eram efeitos de ressonância transformou-se em conexões propriamente ditas[2]. Ou seja, diferentemente de Freud, Lacan passa das referências, dos exemplos emprestados, às disciplinas e as conexões como tais, integrando-as diretamente na própria elaboração do saber analítico.

Não há dúvida de que o ambiente universitário mostra-se extremamente propício ao estudo mais sistemático das relação entre o corpo conceitual da psicanálise e suas conexões com outros domínio do saber. Afirma-se isto, principalmente, ao se considerar o quanto o emprego destas conexões se aprofunda e se complexifica ao longo do ensino de Lacan. Tais disciplinas conexas gravitam em torno de quatro eixos: (1) história – da linguagem, da arte, das religiões; (2) etnologia; (3) linguística, fatos de linguagem enumerados, mas também uma referência propriamente à linguística; e (4) a lógica matemática e as matemáticas.

Miller sustenta a seguinte tese: se a psicanálise, desde os seus primórdios se exprime marcada por essa gama variada de conexões, cujo apogeu aparece no interior do momento mais clássico do ensino de Lacan, o último ensino, por sua vez, se encaminha para a quase erradicação destas conexões. [ver Esquema abaixo] Não se pretende no âmbito desta intervenção entrar no exame do modo como Lacan, em seu ultimíssimo ensino, corta progressivamente com as conexões da psicanálise. Sugere-se apenas que esta hipótese da supressão das conexões aponta para o princípio do primado da prática analítica[3]. Diante disto, passa-se para o nosso segundo aspecto, talvez mais desafiador, a saber: o ensino da psicanálise na Universidade pode estar aberto à prática clínica.

A extensão universitária permeável à prática clínica

Indaga-se, a esse respeito, sobre as razões que teriam conduzido Freud a afirmar de que a universidade “só teria a ganhar com a inclusão do ensino da psicanálise em seu currículo”, mas esse ensino, “somente poderia ser ministrado de forma dogmática, em aulas teórica, pois quase não haveria oportunidade para experimentos ou demonstrações práticas”. Certamente, muitas iniciativas de ensino da psicanálise na Universidade contrapõem-se a esse ponto de vista. Em primeiro lugar, deve-se observar que o ensino teórico da psicanálise na universidade acontece por conta e risco do responsável pela disciplina, cuja transmissão expressa sua própria relação com a psicanálise. Com isto se quer dizer que é menos a psicanálise do que o psicanalista que se faz presente nesta permeabilidade da Universidade à prática clínica. Compreende-se, assim, que a prática clínica nesses espaços depende do psicanalista em questão, ou seja, a aplicação terapêutica da psicanálise só é possível por aquele que detém os meios e fins da psicanálise em intensão. Como salienta Lacan, na Proposição, a psicanalise em intensão é o que prepara operadores para a psicanálise em extensão, cuja função é a de marcar a presença da psicanálise no mundo.

Concebe-se a extensão como o que permite mostrar as ações clínicas do psicanalista em campos diversos onde é possível aplicação terapêutica da psicanálise. As ações do psicanalista visam, essencialmente, nestes espaços, a captar o real a que as formas do discurso do mestre estão confrontadas em seu esforço de normatização[4]. A meu ver, esse ponto de real sobressai da própria norma e procura-lo a partir do que gera mal-estar no seio da instituição é o que pode tocar algo da ordem do mais-gozar. Assim, nas instituições, visa-se incidir sobre as formas sintomáticas que se manifestam em crianças e jovens durante a trajetória deles em instituições, e em profissionais, na relação deles com o grupo ou com o trabalho que realizam.

É fundamental considerar, no âmbito da extensão, os psicanalistas “como um objeto nômade e a psicanálise como uma instalação portátil, suscetível de se deslocar para novos contextos e, em particular, para as instituições”[5], que segundo designação de Miller, trata-se do Lugar Alfa. É nestas circunstancias que pode acontecer o encontro de um sujeito com um psicanalista, que tenta provocar a emergência de um novo saber relativo ao inconsciente, que favoreça a reconexão com a realidade social. Pode ser que surja algo novo, no ponto em que, antes, havia um impossível de se dizer ou uma resposta sintomática que, para se expressar, engendrou uma barreira que promove exclusão. Tal encontro é aferido por seus efeitos, testemunhados por crianças, jovens e profissionais que trabalham nestas instituições. “Os efeitos psicanalíticos propriamente ditos se produzem no seio de contextos institucionais, não importando o quanto esses contextos autorizem a instalação de um lugar analítico”[6].

A prática clínica diante do culto da utilidade direta

É preciso que a psicanálise estabeleça uma aliança inteiramente nova com sua forma que se chama ‘aplicada'”, afirma Miller. Tal aliança implica a consideração de que o “deus” dos tempos modernos é “a utilidade direta”. Assim, em face de cada objeto/fato novo, pergunta-se logo: “Para que serve?” A essência de tudo, mas também a causa que justifica sua existência, é, pois, o uso imediato. Ao lidar com as coisas para além do critério da utilidade, a psicanálise faz valer o campo do gozo, do inútil, do que não serve para nada. Este é o desafio com o qual o ensino da psicanálise na Universidade permeável à prática clínica confronta-se cotidianamente. Propõe-se, assim, que um tal prática saiba interrogar o psicanalista, apertá-lo para que declare suas razões nesse mundo obstinado pelo culto da utilidade direta.

Introduzir essa mutação na sua forma de aplicação exige que a psicanálise se lance no terreno dos sintomas contemporâneos, em que esse para além da utilidade se faz presente de modo determinante. Diante disso, impõem-se prudência e audácia. Os instrumentos, o saber e o real transistórico da psicanálise não serão modificados por essa mutação. Ao contrário, caso a prática analítica se mostre capaz de apreender a lógica dos sintomas e dos modos de gozo do falasser na atualidade, tais fatores serão salvos.

Os psicanalistas de orientação lacaniana chamam para si a instigação resultante do fato de privilegiarem o real dos sintomas e, com essa referência, desconcertarem o ambiente institucional delimitado por normas e práticas simbólicas consolidadas, para incluírem, de outra forma, o irreconciliável do que perturba, pois este constitui, igualmente, o mais singular de cada sujeito. Os universitários que participam da pesquisa/intervenção não são indiferentes aos efeitos da intervenção produzidos sobre os sujeitos implicados na pesquisa e também sobre eles mesmos na própria relação com a psicanálise. Eis o que testemunha um deles, ao final do trabalho em uma instituição escolar:

“Hoje foi o último dia da minha primeira conversação pelo Nipse. Adorei a experiência e fiquei impressionada com a eficácia desse método em descortinar o incômodo e colocar todo mundo em movimento. Trabalho vivo de muita produção e acontecimentos! Agradeço imensamente (…) pela oportunidade!”[7]

A extensão universitária de orientação lacaniana se delimita, portanto, como pesquisa/intervenção. Está fundamentada na Clínica Pragmática, pratica da psicanálise aplicada[8]. Busca instituir, em instituições, um lugar de palavra, que visa, não a constatar sintomas, mas a produzir um encontro pontual do sujeito com o analista, que, nesse contexto, deve se revelarcapaz de engendrar arranjos originais e de ser fonte de respostas que modifiquem impasses iniciais.

NOTAS

  1. LACAN, J. Talvez em Vincennes… [1975]. In Outros Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 316.
  2. MILLER, J.-A. Psicanálise e conexões [2007]. In: Opção Lacaniana, nº 52.
  3. LLER, J.-A. El ultimísimo Lacan, Buenos Aires: Paidós, 2013.
  4. Orientação de Éric Laurent para o trabalho do CIEN, que propõe aos Laboratórios cogitar o ponto de contato do discurso analítico com o discurso do mestre.
  5. MILLER, Jacques-Alain. Rumo ao Pipol 4. Correio, revista da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, n, 60, p. 9, s.d.
  6. Ibid. p. 11.
  7. Jovem participante do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Psicanálise e Educação – NIPSE, que integrou equipe de pesquisa/intervenção realizada no 2º semestre de 2015.
  8. A Clínica Pragmática consiste na aplicação de referenciais derivados da noção de “psicose ordinária” formulada por Jaques-Alain Miller, para designar toda uma categoria de sujeitos que, sem o apoio do significante do Nome-do-Pai, encontram um modo de enlace sintomático singular para se manter bem. Essa noção, extraída da fase final do ensino de Jacques Lacan para a abordagem de novas formas de sintoma, enfatiza o funcionamento e não, a falta. Assim, a Clínica Pragmática visa mais à suplência que à interpretação. Privilegia o anodamento e todos os recursos do nó, do furo e do corte. Essa clínica torna-se capaz de demonstrar a função inventiva do sintoma, pois, embora mantenha a tendência natural do psicoterapeuta à cura e à reparação, sua prática, se funda na separação e na suplência, o que, na perspectiva da atenção a novas formas clínicas, se apresenta como algo inusitado. A respeito ver: SANTIAGO, Ana Lydia. Efeitos da Apresentação de pacientes frente às exigências do mestre contemporâneo.In Curinga, n, 29, p. 135-148, dez/2009.